Princesa boa é a que solta pum

Mexidão

Essa é a mais pura e cristalina verdade universal. Qualquer outra coisa que tentem lhe vender como ideal é propaganda (geralmente enganosa). Quase um ano atrás, no Dia das Crianças, escrevi aqui no Yahoo! o texto “Vinde a mim as criancinhas consumidoras”, que tratava justamente da polêmica em torno da proibição de publicidade infantil (aliás, a questão permanece em aberto). O assunto agora é outro, mas é quase o mesmo, afinal uma das imagens mais vendidas/consumidas, e cada vez mais precocemente, é a da princesa. No entanto, que princesa é essa? O que veste? Como vive e se reproduz? Quais aplicativos prefere?

Em cartaz no Teatro Alfa, em São Paulo, a peça Até as Princesas Soltam Pum acompanha duas amigas (Danielle Barros e Fabiane Camargo) e seus questionamentos sobre o que é preciso para ser uma princesa de verdade. Numa divertida jornada noite adentro as amigas são acompanhadas por dois seres saídos dos contos de fada (Pedro Ribeiro e Cristina Bosch). Inspirada no best seller infantil escrito por Ilan Brenman, a peça (como o livro) traz respostas muito interessantes para questionamentos de adultos e crianças, pais e filhos.

Então decidi conversar com Cristiana Ceschi, atriz e contadora de histórias, que assina a dramaturgia e a direção de Até as Princesas Soltam Pum. Para saber, entre outras coisas, como a realidade de um pum pode deixar a fantasia ainda mais interessante.

Qual era a imagem de princesa que rondava sua infância? Você queria ser uma?

Gostava bastante de histórias de princesas, menos como um modelo a ser alcançado e mais pelo espírito de aventura, e sobretudo pela promessa de felicidade que os contos de fada carregam. Na minha época de criança não tinha uma “roupa de princesa”, sapato ou tiara, minha geração era bem mais livre para criar esses elementos todos que construiam e alimentavam as nossas princesas.

Tinha alguma princesa que você gostava na época? E como adulta tem alguma princesa que você gosta?

Gostava muito da Rapunzel. Sempre tive um cabelão e minha mãe fazia duas trançonas. Também gostava da princesa do Rumpelstiltskin, uma das minhas histórias favoritas de quando era criança. Agora sou apaixonada pela Psiquê, pelo mito todo de onde brotaram tantas outras histórias desse universo dos contos de fada que chegaram até nós.

As princesas melhoraram ou pioraram com o tempo? Ou está tudo na mesma?

Pioraram muito. Ou melhor, a princesa do universo mítico e arquetipal não melhorou e nem piorou. Ela é, existe e persiste. Agora, a princesa estereotipada, que aparece nos filmes da Disney, por exemplo, e que vende fantasias... esta piorou bastante. Parte disso diz respeito ao amaciamento dos contos de fada. Essas princesas dos filmes das Disney foram amaciadas à tapa! Ou melhor, com um martelinho de bater bife! Leia a versão original da Gata Borralheira [Cinderela] e veja depois o filme da Disney, que é uma versão adocicada e totalmente colada em estereótipos e em estratégias de marketing: essa é ilusão que vende - e muito! A franquia “Princesas da Disney” é assustadoramente lucrativa. Existe hoje, a meu ver, uma confusão generalizada, inclusive dentro das discussões feministas, sobre o que é o estereótipo e o arquétipo de uma princesa. Em uma velha e boa história de princesa, seja do Ocidente ou do Oriente, a princesa está inserida em um eixo, em uma estrutura simbólica, no qual ela é o principio de um ser que vai se realizar. Ela é também a parte feminina da nossa personalidade (homem ou mulher) que tem o dom de inspirar amor e nos fazer sonhar. É uma figura forte, corajosa, com jogo de cintura e muito importante na construção da nossa humanidade.

O que tem de bom e de ruim na imagem que geralmente se constrói da princesa pras meninas?

Na imagem que geralmente se constrói de princesas para as meninas (hoje e como está sendo feito) não tem nada de bom. De ruim, tem isso que falei antes... do amaciamento, da transformação desse arquétipo transformador em um estereótipo nocivo: a menina que tem que ser adequada, boa moça, frágil e delicada e que um dia será descoberta por um lindo príncipe que vai fazê-la feliz. Muito triste... e revoltante também. Mas também é triste ver as pessoas fugindo desse estereótipo e caindo em outro: dessa mulher que tem que ser forte 24h por dia, que não precisa da ajuda de ninguém, que nunca chora por amor, por querer um companheiro ou uma companheira...

Como contadora de histórias e agora como diretora de peça infantil como você lida com essa questão da princesa, da imagem da princesa, para as meninas de hoje?

Sou uma defensora das princesas... do conto de tradição oral, do conto maravilhoso, do universo mítico e arquetipal das princesas. Procuro apresentar outra perspectiva, distanciada dos estereótipos, dos julgamentos “machocêntricos” que pairam sobre essa figura do feminino. O maior dos encantamentos, nos contos de fada, é o amor. E isso as princesas (meninas ou meninos) têm de sobra.

Que princesas são essas que soltam pum?

São princesas humanizadas, possíveis. Tem um lugar amoroso dentro de nós que nos permite ser menos tacanhos com nossas imperfeições, dar risada das nossas bobagens e de alguma maneira confiar que soltar aquele pum, no balanço da relação, não faz tanta diferença. Princesas que soltam pum são livres.