Quem não estiver de rolezinho não está vivo

Dafne Sampaio

Um espectro ronda os shoppings de São Paulo: o espectro do rolezinho. Mas, peraí, desde que o mundo é mundo, os jovens se reúnem em grupos para se divertir, paquerar, beber, comer... viver, enfim. E, desde os anos 1980, os shoppings se transformaram em um dos lugares preferidos para esses encontros com seus cinemas, praças de alimentação e lojas. No caso específico de São Paulo, com as poucas opções de lazer público e a tal falta de segurança nas ruas, esses espaços se tornaram cada vez mais usados e necessários (bobagem ficar julgando se shopping center é legal ou não, shopping é).

Então, de uma hora para outra e em pleno ano de 2014, o rolezinho pode dar multa (10 mil reais!) e seus participantes passaram a receber o tratamento habitual da Polícia Militar (humilhação, agressão física, bombas de gás e tiros de borracha). O rolezinho virou crime numa aliança bizarra (e muito reveladora) entre donos de shopping, lojistas, uma parcela da clientela, PM, mídia e Judiciário.

O que mudou então dos rolezinhos d’outrora para os de agora? Em um vídeo de 2011, calouros da FEA-USP fazem baguncinha no Shopping Eldorado, e não se vê polícia, não se vê repressão. Em 2014, adolescentes foram retirados do Shopping Itaquera a base de cassetetes. O que mudou? Os protagonistas, claro.

“Os rolezinhos não são protestos contra o shopping ou o consumo, mas afirmações de: ‘Queremos estar no mundo do consumo, nos templos do consumo’. Entretanto, por serem jovens pobres de bairros periféricos, negros e pardos em sua maioria, e que ouvem um gênero musical considerado marginal [funk ostentação], eles passam a ser vistos e classificados pela maioria dos segmentos da sociedade como bandidos ou marginais. Vamos pensar que, na própria concepção do shopping, não está prevista a presença desse público, ainda mais em grupo e fazendo barulho. Pergunto-me se fosse em um shopping mais nobre, com jovens brancos de classe média alta, vestidos como se espera que um jovem deste estrato social se vista, se a repercussão seria a mesma, se a criminalização seria a mesma. Talvez fosse considerado apenas um flash mob”, afirmou o antropólogo Alexandre Barbosa Pereira em entrevista à jornalista Eliane Brum.

Em poucas palavras, a criminalização do rolezinho é preconceito de classe unido a racismo. Nem mais, nem menos. Afinal, desde o início desses novos rolezinhos, pouco mais de um mês atrás, houve poucos e isolados incidentes como furto (que não se sabe se foram os jovens do rolezinho ou se criminosos profissionais que se aproveitaram da bagunça) e nenhuma depredação, baderna ou nada parecido.

Mas esses jovens de periferia foram tachados de criminosos antes mesmo de entrar no shopping, só por existirem e desejarem (que audácia!) participar dessa “festa do consumo”. E, sem ter feito absolutamente nada, tomaram porrada, tiro e foram humilhados e ainda assim continuam sendo considerados criminosos por uma PM que serve cada vez mais como guarda patrimonial privada do que para atender ao cidadão. A escritora Vanessa Barbara esteve no Shopping Itaquera no último domingo, 12 de janeiro, e presenciou a sanha policial por violência. Um dos soldados destacados para a operação repetia como que hipnotizado: “Vou arrebentar vocês, vou arrebentar”.

Esse comportamento do policial (da corporação) é o mesmo de boa parte dos comentaristas de grandes portais que babam raiva sobre o que não compreendem. Exigem que prendam, esses baderneiros, e que matem, esse funkeiros. Não interessa o outro, o direito do outro. O preconceito continua sendo a medida de justiça pra essa gente. Isso sim é crime. Rolezinho não. Rolezinho é identificação festiva, e ocasionalmente ruidosa, com a cidade. Rolezinho é outra coisa.

p.s.: Agora, seria muito interessante se algum shopping tivesse a sagacidade capitalista de chamar essa molecada do rolezinho para suas dependências. São consumidores hoje e serão no futuro. Todos sairiam ganhando.