Sobre as capas das semanais – Vol. 2

Nada como um dia após o outro dia e nada mais revelador que o oportunismo. Nenhum dos principais semanários brasileiros deu capa aos protestos do Movimento Passe Livre na semana passada. Tudo bem. Tinham ocorrido apenas dois em São Paulo e o segundo foi na sexta, 7 de junho, dia que as revistas ou estão nas gráficas ou indo para as bancas (falei do MPL no texto “Um passo a frente”). Mas no decorrer dessa semana ocorreram mais dois, vocês sabem muito bem, e o que era “ação de baderneiro” virou outra coisa. Bem, se tivesse ocorrido apenas a manifestação de terça tenho certeza que as semanais iriam seguir batendo na tecla da “baderna”, porém depois da ação criminosa da PM de Geraldo Alckmin na quinta, tudo mudou. Até os jornais Folha e o Estadão que em editoriais exigiram – isso mesmo, exigiram – uma reação enérgica da polícia foram obrigados a rever sua posição. Vamos então às capas...

Veja: a revista que todos amam odiar deu um jeito de parecer simpática aos manifestantes, só que o título “A revolta dos jovens” também é um sinal claro que ela não se coloca junto desses moços, pobres moços. E do alto de seu jeito tiozão hidrofóbico ainda tenta colocar novos temas – corrupção e criminalidade, questões genéricas e vazias como a própria revista –, para as próximas manifestações. Curioso que dessa vez, a filha mais nova, a Veja SP, conseguiu uma capa mais reacionária que a da nave mãe. Com o título “A cidade paga o preço”, a revista esquece que a cidade já está pagando o preço pela baixa qualidade e quantidade do transporte público e pelo privilégio burro aos carros. E, veja bem (ooops), o maior trânsito da semana foi na quarta, 12 de junho (Dia dos Namorados), quando não teve nenhuma manifestação.

Época: a revista global, geralmente mais objetiva, deu um tom Globo Repórter a sua capa apoiada por uma foto excelente. “Quem são eles? Como agem, o que pensam e até onde querem chegar os manifestantes que paralisaram as principais cidades brasileiras”... sexta, no Globo Repórter. Numa chamada secundária, no alto da página, deu tempo ainda de puxar o saco do prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes. Tudo em casa, enfim.

Istoé

: dessa vez a revista semanal mais querida da Lapa de Baixo resolveu colocar a faca no dentes e partir para briga. Amparada por uma das fotos mais reveladoras da violência policial de quinta, a revista afirma que os movimentos sociais estão renascendo em todo país e que suas demandas são atendidas à bala por uma polícia despreparada. É “A volta da repressão”... pena que eles não conseguem ser sintéticos nas chamadas e mandaram um “Nada justifica” antes e em tamanho menor, o que dá uma bagunçada na leitura.

Carta Capital: a revista comandada por Mino Carta é a que primeiro chega às bancas e já devia estar com a capa pronta quando a manifestação de quinta explodiu em raiva policial no começo da noite (um de seus repórteres, Piero Locatelli, foi preso e levado a DP por estar com vinagre na mochila!). A matéria principal é sobre espionagem na internet feita por governos e empresas, assunto importante e necessário, e que tem a ver com as manifestações também, afinal sua organização e divulgação se dá majoritariamente pela rede. As manifestações do MPL ganharam o segundo destaque que diz objetivamente que a polícia usou de truculência diante de um movimento pacífico e legítimo (e que está aumentando e se espalhando por todo o país).

Sugestões de leitura sobre a terrível e histórica noite de quinta, 13 de junho de 2013:Camundongos”, de Pedro Alexandre Sanches; “Por gentileza: tirem Geraldo Alckmin do poder”, de Ronaldo Bressane; “Carta aberta do Movimento Existe Amor em SP ao Prefeito Fernando Haddad”; “A segunda batalha da Maria Antônia”, de Ivan Marsiglia; “Existe terror em SP: o dia em que PMs atiraram ante aplausos e pedidos de não violência”, de Janaína Garcia; “O monstro da janela”, de Fausto Salvadori Filho; “Carta de um policial nos protestos de São Paulo” e o tumblr Feridos no Protesto em São Paulo.

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