Putz

Comoção canina

Criar cães e gatos como agregados não é nada novo. É tão disseminado que eles são praticamente figuras obrigatórias naqueles fatídicos adesivos de "família feliz", complementos de manifestações de fé coladas em traseira de carro. Porém, há uma tendência crescente à "humanização" dos animais, borrando as diferenças entre bicho e gente.

Isso vai muito além do ridículo (condição que só  humanos podem alcancar), como promover um amigo secreto entre cães. Chega ao absurdo e fica perigoso, como se vê na reação de autodeclarados amantes dos animais ao vídeo que flagrou uma mulher espancando uma cachorrinha yorkshire em Formosa, Goiás, na frente de sua filha de menos dois anos. De tanto apanhar, o animal morreu. É um crime, horrível como tantos outros casos de maus tratos a animais de que tivemos notícia nas últimas semanas — como o rottweiler Lobo, arrastado pelo carro dirigido pelo dono. Outro fato que requer atenção é a relação entre maus-tratos contra animais e a violência doméstica, como comprovam estudos recentes. Daí que violência contra o cãozinho ser praticada na frente de uma criança pode não ser um mero detalhe.

Contudo, a reação ao caso descambou para a loucura. Aplicar a lei não parecia o bastante. Com sangue nos olhos, uma turba inundou de ódio rodinhas mil na web, clamando pelo linchamento da mulher. Mesmo que na internet seja difícil separar bravata de ameaça, o caso espanta. A mulher teve seus dados pessoais lançados na internet, foi obrigada a mudar de endereço e agora anda sob escolta policial, enquanto corre o inquérito do crime pelo qual realmente espero que seja punida com o rigor previsto em lei.

Soa incoerente que cândidos amantes da inocência dos animais vociferem desejos de extermínio.  Afinal, como conciliar a defesa do respeito à vida com justiçamento? Mas a confusão por ser muito mais profunda. O sujeito que estufa o peito para dizer "quanto mais conheço os homens, mais admiro os animais" não está pronto para sair à rua. No melhor dos casos, não se vê em condição de igualdade com outras pessoas e projeta no cão uma extensão de si.  Curioso notar que o Terceiro Reich, para quem nem todo mundo era gente, tinha a legislação mais severa da Europa para quem maltratasse animais.

Quem assiste ao "Encantador de Cães" desconfia que a humanização dos peludos também não lhes faz bem. Os mimos ofertados pela gigantesca indústria do mercado pet só ajudam a aliviar a carência de donos , que são a maior parte dos "pacientes" do ótimo Cesar Millan. Especialistas e ativistas sérios defendem que o fundamento sobre bem-estar animal está justamente na ideia de que não se deve estender a eles nossa concepção de desejos e necessidades e sim garantir a liberdade para serem o que são em plenitude.

Para quem realmente se importa com os animais, incluindo o homem, fica a dica: leia o projeto de Declaração Universal de Bem-Estar Animal, texto que a WSPA (Sociedade Mundial de Proteção Animal) propõe para assinatura de líderes mundiais, e engrosse a campanha. E pare de trollar por aí, que eu e minha cachorra vamos aproveitar o dia de sol.

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