Um papa pra chamar de seu

mblanco

É um alívio o papa não ser brasileiro. Essa proximidade com o despachante número um da divindade nos faria entrar num modo “arquivo confidencial” por tempo indefinido. Parentes, amigos de infância, colegas... Todo mundo no Faustão a lembrar o garotinho travesso de bom coração. Fora isso, alguém imagina o que seria aturar a família de um papa? Talvez algo tipo Ronaldinho Gaúcho e Assis. Que inferno.

Ainda assim, foi divertido imaginar o dia seguinte. Principalmente, pensar no que seria a capa do Zero Hora, já que o gaúcho dom Odilo Scherer dividia a liderança dos papáveis. Um arrebatamento de megalomania gaudéria seria o mínimo. Mas aí veio um argentino, e com ele a melhor manchete, no Olé: “A mão de Deus. Maradona, Messi... e agora Jorge Mario Bergoglio, eleito novo papa.” Os vizinhos superam qualquer expectativa em megalomania.

Mas como a capital do Brasil é Buenos Aires, dá quase no mesmo, e o Vaticano sapecou o papa Francisco com o recado do que parece ser a fase dois de uma “renovação conservadora” no catolicismo, iniciada por Bento 16, e que agora quer se projetar ao mundo. "Se nós não professarmos Jesus Cristo, nos converteremos em uma ONG piedosa, não em uma esposa do Senhor", afirmou o papa em sua primeira homilia.

Bergoglio chega para reafirmar o conservadorismo em temas sensíveis à igreja, como casamento gay e aborto, com um apelo à simplicidade de quem anda de ônibus e cozinha a própria comida. Porém, a vida pregressa, essa ingrata, impõe como primeira tarefa do novo papa negar que tenha colaborado com a ditadura militar na Argentina.

Acima de tudo, a escolha do primeiro papa latino-americano é o reconhecimento de enfraquecimento da Igreja Católica e o esforço derradeiro para conter o avanço dos movimentos evangélicos pentecostais na região. Talvez seja tarde. O Brasil, com a maior população de católicos nominais do planeta, passa por uma enorme transformação na dinâmica das filiações religiosas e, se considerarmos dados do último Censo, poderá ter evangélicos como maioria em 50 anos.

Seja qual for o rebanho predominante, e justamente em razão dos planos de expansão de lado a lado, o que importa é a consolidação dos direitos civis sobre a pauta religiosa. Tarefa nada simples. Afinal, “o Brasil é um país laico-cristão”, na visão do hoje célebre pastor e deputado Marco Feliciano (PSC-SP), figura que afronta o bom senso e os cabeleireiros do país.