Adele faz de “25” um dos álbuns mais surpreendentes produzidos nos últimos anos. De tão ruim...

r-tadeu
Na Mira do Regis

Existem discos perfeitos para seres de planetas onde reina a estupidez, nos quais as civilizações não passam de um amontoado de corpos a intercalar a respiração com algum tipo de pensamento, incapazes de decifrar significados ocultos e cujas capacidades cognitivas são inexistes. 25 é o terceiro álbum de Adele e cai como uma luva para a descrição acima.

Há um clima melancólico e nostálgico pairando por sobre o álbum. E este é exatamente um dos maiores problemas nele, porque tais características dão margem a um entendimento não menos que rasteiro em termos poéticos. As reflexões embutidas em cada canção são tão bem elaboradas quanto uma tempestade de detritos cósmicos. É um “chororô” tão enfadonho e repetitivo que parece que em vários momentos da produção deste álbum faltou oxigênio na cabeça de todo mundo envolvido.

“Send My Love (to Your New Lover)” tem lá seu suingue minimalista, mas escorrega na tentativa de levar a sonoridade da Beyoncé para o norte de Londres. Ao despir a superprodução que a americana colocaria em uma canção deste tipo e optar por um violão e uma base eletrônica mais cadenciada para conduzir tudo, é como se Adele desejasse atrair a atenção de adolescentes fãs de Taylor Swift com uma abordagem mais “classuda”. Um embuste que só quem tem o miolo mole acredita que “foi feita de coração”.

“I Miss You” tem um ritmo marcado por uma total ausência de suingue. Endurecida, a canção serve para que Adele coloque uma vocalização histriônica – principalmente nos refrãos - completamente desproporcional ao que pede o clima da canção, tão carismático quanto uma nave espacial russa. Seria interessante que ela tivesse ouvido um pouco mais de Depeche Mode para entender o que poderia soar melhor do que a gritaria desnecessária que gravou.

“Remedy” e “When We Were Young” são daquelas baladas conduzidas unicamente pelo piano que deixam aquela velha sensação “onde foi que eu ouvi isto antes?” e que traz Adele exagerando novamente no histrionismo em vários momentos. Lembra um pouco a “vibe” daquelas lindas canções que só o Elton John sabe fazer. Pena que a interpretação da Adele deixe tudo com cara de trilha sonora do desenho Frozen. Assista abaixo o que ela apresentou no Saturday Night Live recentemente:

A mediocridade de “Water Under the Bridge” dá a impressão que Adele adoraria homenagear a Alanis Morissette na trilha sonora de um hipotético Avatar – parte 2. Deus me livre! Veja abaixo ela mostrando a canção ao vivo no The Tonight Show do Jimmy Fallon:

Se a intenção dela foi trazer um pouco de soul music com pitadas gospel ao álbum com a inclusão de uns troços batizados como “River Lea” e “Love in the Dark”, alguém deveria ter dito à moça que ambas as canções teriam sido rejeitada até pela Rihanna. Um pastiche pseudoautobiográfico incluído aqui só para encher uma linguiça das bravas…

Para piorar ainda mais a audição, “Million Years Ago” é daquelas musiquinhas tocadas ao violão em volta da fogueira na praia, só que durante uma convenção de secretárias executivas balzaquianas em algum resort em Miami. O mesmo vale para a pavorosa “All I Ask”, com a diferença que nela o violão foi substituído por um piano tocado por um orangotango não muito chegado em leitura de partituras. Adele canta com uma estridência tão irritante que levaria os terroristas do Estado Islâmico a acionarem suas bombas amarradas às cinturas antes mesmo de deixarem seus esconderijos. Em ambos os casos, a cafonice reina de maneira tão intensa que faz a Mariah Carey parecer a Nina Hagen em termos de transgressão sonora.

A rigor, o álbum tem apenas duas canções dignas de nota. “Hello” é sim uma bela canção, que trata a retomada de contato entre antigos amores como uma delicadeza singela. Introspectiva e grandiloquente em doses precisas, ela traz ecos da antiga sonoridade que Kate Bush apresentava em suas canções. Detalhe: a bateria que se ouve na canção foi tocada pela própria Adele. A outra é “Sweetest Devotion”, com uma linha harmônica/melódica/rítmica linda, bem próxima de um country rock psicodélico, que Adele canta com linda devoção. E só. Mais nada.

A cantora inglesa chegou a pensar em desistir da carreira depois que lançou o disco anterior, 21 (2011), pois disse não se sentir inserida no contexto comercial que todo artista que explode de uma hora para outra se vê praticamente obrigado a aceitar. Isto até acabou causando um bloqueio que a impediu de compor por muitos meses. Sem, contar que virou mãe neste período. Ouvindo 25 com atenção, não tem como não pensar que Adele deveria ter ouvido os sinais que recebeu…