“Autoentrevista” de Lulu Santos é apenas a ponta de um imenso ‘iceberg’ de estupidez e egocentrismo

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O episódio poderia ter sido uma cena de alguma série que mostra o quanto este planeta se tornou o cenário perfeito para algumas aberrações de comportamento, mas não. Realmente aconteceu e mostrou que estamos perdendo o controle sobre o bom senso.

O Diário Catarinense, mais conhecido como “DC”, enviou um e-mail à assessoria do Lulu Santos com algumas perguntas. Até aí, nada demais. É um procedimento corriqueiro, empregado quando o artista não está a fim de falar diretamente com o jornalista, seja pessoalmente ou por telefone. Embora eu não concorde com este tipo de postura, reconheço que muitos artistas usam tal artifício também para salvaguardar a veracidade de suas respostas, visto que tem muito jornalista picareta que coloca “respostas” na boca do entrevistado que não condizem com aquilo que foi conversado. Bom, cada um cuida do seu direito, julga o que melhor lhe convêm e aceita ou não as regras do jogo, certo?

Foi então que repórter recebeu de volta do recebeu em seu e-mail não as respostas para perguntas enviadas e sim respostas para uma ‘entrevista’ feita pelo próprio Lulu Santos com ele mesmo, com um teor que nada tinha a ver com as perguntas originais!!! Sim, não estou brincando… Segundo a assessoria do cara, ele não curtiu as perguntas e resolveu fazer as suas próprias, se autoentrevistando - – saiba mais e leia a tal “entrevista” aqui.

Que Lulu é considerado um dos sujeitos mais intragáveis entre os jornalistas que cobrem as editorias de Cultura de todos os jornais e grandes portais, isto é inegável. O curioso é que eu mesmo tive o prazer – sim, isto mesmo! – de entrevistar o cara em duas ocasiões, quando era diretor de Redação da revista Cover Guitarra. Em ambas, o papo foi excelente e muito divertido. Lulu foi um cara articulado e que não fugiu de nenhuma pergunta, explicando tudo a respeito de seu sempre ótimo som de guitarra, suas histórias, suas polêmica e chegamos mesmo a entabular uma divertida discussão a respeito do… King Crimson! Sem contar que eu prometi enviar a ele uma CD-R com a gravação de um dos LPs de minha coleção, Os Afro-Sambas, do Baden Powell, lançado em 1966, que só não o fiz por absoluta preguiça de passar um LP para CD. Desculpe por isso, Lulu.

Só que o episódio inteiro ilustra de maneira significativa a zoeira em que se transformou o “mainstream” do meio musical brasileiro. Acabaram-se os tempos em que artistas encaravam as entrevistas como um meio de se posicionarem claramente em relação a uma crítica social, só para citar um exemplo da seriedade que uma conversa com um jornalista podia assumir. Hoje, na maioria das vezes, a coisa descamba para um nonsense total e triste, e é aí que autoindulgência da grande maioria dos artistas brilha. Todos são personagens interpretados pelo mesmo tipo de bufão que pensa que é rei ou da camareira que tem um surto psicótico e passa a achar que é uma rainha.

É claro que Lulu sabe muito bem que sua alegria e simpatia precisa ser direcionada principalmente à emissora que lhe paga o salário e ao público que comparece aos seus shows e que justifica o alto cachê de suas apresentações. Só que nada justifica uma atitude patética como esta de se autoentrevistar, mostrando não apenas um total desprezo ao jornalismo, mas também aos seus fãs que possuem pelo menos quatro neurônios em bom funcionamento. É este mesmo jornalismo que é acionado quando um artista está prestes a lançar um disco, um show ou o raio que o parta.

Infelizmente, o mundo artístico é apinhada de freaks malucos de todas as espécies, só que embalados em roupas reluzentes e, na maioria das vezes, de extremo mau gosto, formando um tipo de “clube” que nada mais é que uma espécie de meio de transporte motorizado para a estupidez, que contribui para a ignorância com a melhor trilha sonora para não se fazer nada que você pode imaginar.

Lulu Santos, Claudia Leitte, Joelma e seu ex-marido Chimbinha… São inúmeros os casos de gente não apenas desconectada da realidade, mas que vive em uma bolha tão repleta de assessores “baba-ovos” que passa a acreditar que qualquer atitude tomada seja saboreada pela patuléia de fãs retardadas e de jornalistas que usam os releases das assessorias desta gente para “escrever” suas matérias.

Mas os jornalistas tem uma enorme parcela de culpa neste estado de coisas. Perguntas cretinas, adulação antiprofissional e carência emocional parecem ditar os rumos das carreiras profissionais de quem deveria ter um mínimo de independência de pensamento. Quem já participou de entrevistas coletivas de artistas de todos os gêneros tem uma série de historinhas que poderiam ter sido inspiradas pela obra de cineastas surrealistas. Eu mesmo já presenciei situações em que perguntei a mim mesmo como alguém que se diz “jornalista” teve a manha de exibir a sua cretinice e falta de cultura na frente de outros colegas.

Por conta de meu trabalho aqui no Yahoo! e, principalmente, na TV, acabei me tornando uma “figura pública” – algo muito longe e diferente de ser “famoso” – e em nenhum momento tive qualquer dificuldade em manter os pés no chão para tirar sarro e questionar veementemente o estilo de vida e o trabalho de quem se julga “inteligente” e “descolado”, mas que não passa de um pateta.

Às vezes, tenho a sensação de estarmos todos presos em um imenso sanatório…

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