Brasileiro não merece eventos culturais gratuitos

Na Mira do Regis

Sei que o que vou escrever aqui vai deixar muita gente horrorizada, principalmente aqueles que defendem uma postura "politicamente correta" mesmo frente às maiores barbaridades. Só que ignorar isto significa que tem gente vivendo em outra realidade, fingindo que mora em um país desenvolvido ou mentindo descaradamente.

Alguém precisa dizer isto com clareza: é simplesmente impossível viabilizar qualquer evento cultural gratuito no Brasil. É, é isto mesmo o que você acabou de ler.

A verdade nua e crua desta afirmação foi comprovada — mais uma vez — por quem esteve, como eu, tentando assistir a exibição do maravilhoso e clássico filme Nosferatu, o mais bem acabado exemplo do movimento expressionista alemão, que foi exibido na noite de sexta passada no Parque Ibirapuera, ao ar livre, gratuitamente, tendo como bônus a presença de uma orquestra interpretando a trilha ali, "ao vivaço".

O que tinha tudo para ser uma noite memorável se tornou um pesadelo muito maior do que a história do filme em si. Em parte por culpa da própria organização do evento, que simplesmente deixou grande parte das luzes do parque acesas, algo que para uma sessão de cinema é o fim da picada. Se havia o receio de assaltos, 'arrastões' ou o que quer que seja na escuridão adequada do local para tal tipo de evento, que providenciassem um reforço no policiamento e na segurança.

É claro que a claridade — desculpe, não pude evitar a frase infame — atrapalhou completamente a visualização do que se passava na tela, ou melhor, na parede da parte posterior do Auditório Ibirapuera. Lançado em 1922, o filme ainda hoje é um dos melhores exemplos de como o contraste entre luz e sombras pode adquirir o status de arte no cinema, mas com o excesso de claridade, a impressão é que estávamos assistindo a um filme caseiro da minha avó Jesuína, feito no dia em que ela começou a namorar o meu avô. Para piorar as coisas, o som da orquestra estava tão baixo que dava para ouvir o debate entre três grilos a respeito da situação política que reina no gramado do parque...

Mas nada me deixou tão irritado quanto a maneira como o próprio público presente encarou o evento. Fiquei chocado em ver que, ao meu redor, apenas meia dúzia de pessoas estava literalmente tentando assistir ao filme. O resto estava muito mais interessado em botar a conversa em dia, falando alto e gargalhando, como se estivesse em uma 'balada' qualquer.

Incomodado com tal postura e prestes a arrumar uma discussão com um bando de zé-manés, comecei a circular pela plateia tentando encontrar um lugar onde pudesse apelo menos assistir ao que estava rolando com um pouco de silêncio à minha volta. Não consegui. O comportamento das pessoas era o mesmo: conversas constrangedoras em alto volume, meninas 'twitando' o tempo todo, grupos tirando fotos de si mesmos de costas para o filme, energúmenos fumando baseados sem a menor consideração pelas crianças que estavam presentes...

Saí do local no meio da sessão, enfurecido com a total falta de educação das pessoas. A mesma que me fez abandonar a ida aos eventos da Virada Cultural em São Paulo depois que quase arrumei uma briga com três imbecis que se recusaram a parar de falar alto ao meu lado durante uma apresentação do hoje falecido tecladista Jon Lord ao lado de uma orquestra há alguns anos.

Também saí com a certeza de que enquanto não houver uma profunda e radical mudança no comportamento do público brasileiro em geral, estes eventos culturais gratuitos vão se tornar cada vez mais raros, até se extinguirem completamente.

E antes que alguém venha com algum tipo de palhaçada, já vou avisando: isto não tem nada a ver com "baixo poder aquisitivo", "classes menos favorecidas" e outros argumentos discriminatórios. Em todos os shows — gratuitos ou não — que assisto vejo gente endinheirada se portando como "maloqueiros com grana no banco". Toda esta situação tem a ver com EDUCAÇÃO!

Pense nisto na hora de criar seus filhos, por favor...