Na Mira do Regis

Caetano Veloso: 70 anos sem a indiferença brasileira

Foi nesta semana que Caetano Veloso completou sete décadas de vida dedicada à música e à polêmica.

Li muita gente na imprensa saudando o aniversário dele com aqueles textos baba-ovos praticamente pré-escritos, bastando apenas mudar o nome do homenageado e botar umas três ou quatro informações genéricas que qualquer Wikipedia da vida tem. Também li muita gente dando de ombros para isto e até mesmo metendo o pau no velhinho, como se Caetano fosse apenas mais um cara a viver das glórias do passado dentro do universo da MPB, um antro normalmente infestado de artistas que buscam reconhecimento a qualquer preço.

Nenhuma coisa nem outra, meu amigo e minha amiga. Sei muito bem que Caetano é chegado a uma submissão em relação a tudo o que ele diz, escreve e toca — são recorrentes as histórias que rolam no meio jornalístico a respeito dos inúmeros "pedidos de cabeças" de jornalistas que ele ordenou a diretores de jornais, insatisfeito com as críticas.

Só que não vou aqui discutir o caráter de ninguém, pois já sou um velhinho muito do ranheta e não quero aborrecê-lo com os meus medievais conceitos de retidão moral. O meu lance aqui é a música que Caetano produziu em sua carreira ao longo deste tempo e como ela chegou aos dias de hoje ainda com certa dose de inquietação.

É óbvio que ele não tem mais a mesma relevância que ostentava no passado. Aliás, muito pouca gente no planeta tem. Só que o caso de Caetano é emblemático não por aquilo que ele não consegue mais fazer em termos de "sucesso" e sim porque ele justamente ajudou a redefinir o que é "sucesso" nos dias de hoje.

O fato de ter se aproximado do rock em seus dois mais recentes discos de estúdio — (2006) e Zii e Zie (2009) -, a ponto de dispensar parafernálias sonoras e se concentrar em produzir canções para violão, guitarra, baixo e bateria, bem distantes das fórmulas "violãozinho + banquinho + plateia bicho-grilo endinheirada" e "velho astro cafona da MPB + banda de apoio com 254 integrantes + plateia bicho-grilo endinheirada e cheia de artistas da Rede Globo". E quer você queira admitir ou não, os dois discos citados são muito bons. E os shows que promoveram cada um deles foram ainda melhores.

E aí é que entra a redefinição de "sucesso" para os dias de hoje. Sucesso é casa cheia nos shows, nas turnês cada vez mais incessantes, sem folga na agenda. O resto é balela. Alguém aí consegue imaginar Caetano Veloso fazendo apresentações em locais com 'meia lotação', onde quer que seja? E ainda por cima cantando e tocando canções que passam a anos-luz de distância da indigência que permeia a música popular brasileira em tempos de Gusttavo Lima, Michel Teló, Luan Santana e outros embusteiros, sem concessões ao que é "fácilpara o povão"?

Fora do âmbito musical,Caetano tem todo o direito de emitir opiniões a respeito de qualquer assunto, assim como eu e você. Agora, se o que ele fala repercute, isto se deve à necessidade voraz que a imprensa em geral tem em criar assuntos e "polêmicas". O mesmo vale quando ele resolve grudar em algum artista então emergente — a Maria Gadú é o exemplo mais recente que lembro agora — para se manter conectado a uma fatia de público que normalmente não daria bola para o que ele faz. Esperteza ou "vergonha alheia", cada um decide.

E é justamente o fato de não provocar qualquer sensação de indiferença — ame ou odeie, você vai tocar no nome do cara em algum momento — que a figura/personagem de Caetano Veloso é tão intrigante quanto fascinante. Para o bem ou para o mal. É assim com Bob Dylan, Frank Zappa, Axl Rose, Sarney, Maluf e mais um monte de figuras que nos levam a defesas apaixonadas ou vômitos inevitáveis...

O que é inegável é que por mais chato que você considere Caetano Veloso, nada se compara aos seus fãs. Sim, aquela mesma turba insana e desmiolada que todo artista tem. Quem me conhece sabe que defendo com veemência a tese "todo fã é um idiota". E os fãs de Caetano — inclusive dentro da imprensa, o que sempre lhe rende matérias positivas mesmo quando ele erra a mão em cheio — não fogem à regra. Mas aí não é culpa do artista, né? Não dá para crucificar alguém por despertar nos outros uma paixão que beira o retardamento mental...

Caetano tem muito que comemorar nos dias atuais. Não apenas o fato de ter alcançado sete décadas de vida, mas principalmente por ter sido elevado por seus fãs e inimigos a um patamar que todo artista almeja: a crença de que ele é quase onisciente. E isto não é para qualquer um...

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Sobre Regis Tadeu

Regis Tadeu é crítico musical, jurado do Programa Raul Gil, colunista/produtor/apresentador do portal do Yahoo, produtor/apresentador dos programas Rock Brazuca e Agente 93 na Rádio USP FM e foi Diretor de Redação/Editor das revistas Cover Guitarra, Cover Baixo e Batera.

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