Cremes para a cara de pau na música e publicidade brasileiras

r-tadeu
Na Mira do Regis

Não discuto estratégias de marketing de empresas. Trabalhei por quase 15 anos em editoras e sei bem como funcionam estas coisas na hora de divulgar novos produtos e na popularização de marcas. Cada uma sabe onde lhe “aperta o calo” e usa o departamento específico para alcançar algum tipo de resultado que venha a manter todo mundo trabalhando. Desde que não haja qualquer comprometimento da ética e do profissionalismo, cada empresa se vira como pode.

Apesar deste “distanciamento” de minha parte, nunca deixei de olhar torto para empresas que se metem no meio musical sem ter a menor conexão com… música. Nunca entendi muito bem porque marcas de cigarros e cervejas davam seus próprios nomes a festivais grandiosos, com as mais variadas atrações internacionais que se possa imaginar, a não ser o fato de que isto “gera muita mídia”, frase típica presente em qualquer reunião de marketing.

Algum fã de heavy metal vai passar a comprar uma determinada marca de equipamento de som e TV só pelo fato da empresa bancar um festival cheio de grandes nomes do estilo? Alguém que ama música eletrônica vai passar a tomar uma cerveja com gosto de urina de papagaio só porque a marca trouxe um monte de DJs para um grande evento? Algum desavisado começou a fumar ou trocou a marca de seus cigarros porque um festival de rock foi organizado pela empresa? Duvido.

Talvez seja ingenuidade de minha parte, mas o ótimo marketing para mim é aquele que mostra que seu produto é muito bom,e não o que a verba publicitária pode propiciar. Você pode gastar milhões de dólares em campanhas publicitárias, mas se o seu produto não for realmente bom ou a propaganda for tão verdadeira quanto uma nota de R$ 7 – vide o caso recente envolvendo um frigorífico e um cantor que anunciou que agora era “ex-vegetariano” -, pode esquecer: você jogou muita grana no lixo.

Escrevo isto tendo em mente a recente polêmica envolvendo a iniciativa de uma empresa de cosméticos, que vem bancando algunsshows gratuitos – geralmente feito em praias – nos quais coloca-se um artista vivo cantando e tocando repertório de artistas mortos. Foi assim com Maria Rita cantando as músicas da mãe, Elis Regina. Foi assim com Vanessa da Mata entoando canções de Tom Jobim. Agora, o que já era esquisito despencou de vez: botaram Ivete Sangalo e Criolo para “homenagear”… Tim Maia????? É, é isto mesmo o que você acabou de ler…

Olha, na boa… Nem adianta vir com este papinho de que é uma “homenagem”! Não é. É uma estratégia de marketing de gosto duvidosíssimo e que também pega carona no filme a respeito do Tim e, principalmente, na reedição mutilada do mesmo, com cara de minissérie, exibida pela Rede Globo. Vai acontecer em sete capitais brasileiras ainda este ano, estreando 31 de março no Rio.

Reconheço que isto até fez sentido quando botaram a Maria Rita para cantar Elis Regina. Pô, era a filha cantando as músicas da mãe, as duas com vários elementos em comum em termos de estilo e postura em palco, aquelas coisas. Fiquei meio ressabiado quando escalaram a Vanessa para fazer as canções do Jobim, mas o resultado até que ficou interessante, vá lá. Só que agora se revelou que tudo não passa de uma maneira meio maluca de “bombar” a marca do cosmético em um mercado cada vez mais competitivo.

Colocar Ivete e Criolo para cantar músicas com as quais ambos não têm a menor identificação é a típica atitude de quem não manja porra nenhuma de música. Tenho certeza que o pensamento do departamento de marketing da empresa é o seguinte: “vamos popularizar a nossa marca junto a um público mais amplo e genérico com a Ivete, e também mostrar a um público ‘antenado’ que somos muito ‘mudéeernous’ escalando o Criolo. Vai ser um estouro! Nossa, como somos geniais!”

O que virá a seguir? Luan Santana cantando Raul Seixas? Thiaguinho fazendo Cazuza? Anitta fazendo Cássia Éller? Pelo amor de Deus, né? Vai virar moda estragar a obra de gente que está dentro do caixão ou que foi cremada. Afinal, mortos não podem reclamar.

Penso que isto também é uma extensão da terrível onda de musicais que anda assolando o meio teatral nacional, com gente sem o menor talento atuando em espetáculos que deturpam completamente a história e a música do “homenageado”, com atores/atrizes e músicos assassinando grandes canções de ícones como Rita Lee, Cazuza e o próprio Tim. Vale qualquer coisa, desde que haja a possibilidade de um público cada vez mais burro e sem discernimento engolir qualquer porcaria.

Bem fez o Ed Motta, que se recusou a participar deste “projeto” – leia mais aqui- assim que foi convidado pela empresa. Além de seu trabalho ser bem distante da sonoridade do tio, os dois tinham um péssimo relacionamento pessoal. Seria muita hipocrisia caso Ed aceitasse. Sua recusa mostrou muita dignidade. A mesma dignidade que falta em todo o mercado publicitário brasileiro.

Tempos difíceis estes…