David Gilmour e sua música venceram a falta de educação reinante na plateia

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Foi difícil driblar a irritação por ver tanta gente ao meu lado não prestando a menor atenção ao que estava acontecendo no palco. Foi impossível ficar indiferente ao grupo de jovens que não parava de conversar em voz alta o tempo todo, o que me obrigou a virar e pedir com “educação raivosa” que ficassem quietos. Tive que colocar minhas duas mãos nos bolsos e respirar fundo para não dar um “mata-leão” no zé-ruela que insistia em filmar o show pelo celular com os dois braços levantados e que ameaçou retrucar quando pedi com “gentileza irritada” que ele abaixasse os braços e parasse a filmagem. Tive imensa vontade de pegar as cabeças de um casal ao meu lado que não parava de gritar “Puta que pariu, eu não acredito!!!” com sotaque caipira e bater uma na outra, como se estivesse em um episódio dos Três Patetas. Minha irritação ao ver que grande parte das pessoas à minha volta estava ali pela “balada”, para tirar “selfies” e mostrar nas redes sociais que esteve em um “showzão”, sem ter a menor ideia de quem era aquele tiozinho careca vestido de preto e empunhando uma guitarra, estava em um nível elevadíssimo. Sorte que o próprio show tenha impedido que eu me transformasse em uma espécie de “Connor McGregor barrigudo”…

Sorte, não. Apesar de ter ouvido dezenas de relatos de gente que passou pelos mesmos transtornos na plateia, o acaso nada teve a ver com isto. Pelo contrário! Não dá para se meter em qualquer tipo de confusão quando David Gilmour está no palco.

Como guitarrista, Gilmour já atingiu um patamar em que ao lado dele estão apenas figuras mitológicas do instrumento, como B.B.King, Eric Clapton, Jimi Hendrix, Jimmy Page e mais uns três ou quatro. Basta que ele dê uma única nota para sabermos quem está tocando. É assim que acontece toda vez que ele toca a primeira nota em “Shine on You Crazy Diamond”, aguda e dilacerante. Até mesmo os ursos polares no Ártico sabem que é David Gilmour quem está tocando.

Sua presença de palco evidencia o comedimento inglês que tradicionalmente acompanha os grandes veteranos. Continua bom cantor, com as mesmas características de timbres de voz que marcaram toda sua carreira: suavidade, dicção perfeita, sensibilidade e, principalmente, verdade.

Ao assistir a sua apresentação sábado passado no Allianz Park, em São Paulo, vi em ação um artista sem a menor preocupação com “marketing artístico”. Que outro colega de profissão começaria uma apresentação em um estádio de futebol com 40 mil pessoas dentro, em um país distante do seu em milhares de quilômetros – e a anos-luz em termos culturais – com três músicas de seu recém lançado álbum, o ótimo Rattle That Lock, que só meia-dúzia de gatos pingados aqui no Brasil ouviram com atenção? A abertura lenta e gradual, com “5 A.M.”, a faixa-título e bela “Faces of Stones”, funcionou muito bem para preparar o público para a primeira catarse coletiva da noite…

“Wish You Were”, clássica e singela como sempre, fez a grande maioria das pessoas acordar e perceber que estava diante de um momento único. Foi isto que fez com que o estádio inteiro cantasse a letra do início ao fim, algo que se repetiria ao longo da apresentação, mas só nos refrãos de “Money”, da própria “Shine on You Crazy Diamond” e da mitológica “Comfortably Numb”. Por outro lado, não deixou de ser deprimente perceber que quase ninguém, nem mesmo aqueles que se dizem “fãs de Pink Floyd de carteirinha”, sacou que Gilmour botou velhas e subestimadas canções da banda no repertório, como “Fat Old Sun”, incluída no subestimado Atom Heart Mother (1970), e “Sorrow”, do A Momentary Lapse of Reason (1987). Pior ainda foi a comoção causada pelos primeiros acordes e a levada de bateria de “Run Like Hell”, confundida pelos paspalhos com “Another Brick in the Wall”. Ver as palmas do público murchando ao perceber o engano foi simplesmente patético.

Para quem acompanha a carreira de Gilmour, o show foi realmente um desbunde musical, com uma qualidade de som e luz impecáveis. Depois de mostrar mais uma canção recente, a boa “A Boat Lies Waiting”, outra comoção geral surgiu nas primeiras notas do baixo tocadas em 7/4 e o tilintar das moedas pré-gravado. Foi a hora de “Money”, seguida por “Us and Them”, a mesma sequência gravada no The Dark Side of the Moon e em ambas foram marcante os solos de sax executados pelo João Mello – sim, o cara é brasileiro e integrante do grupo, não um convidado, como muita gente pensou.

Teve momentos de psicodelia explícita em “Astronomy Domine” – aliás, que telão sensacional era aquele, em formado de cama elástica e com holofotes que pareciam seres vivos emitindo todas as luzes do Universo e projetando desenhos e imagens arrebatadoras? -, introspecção em “In Any Tongues” e “High Hopes”, delicadeza melódica em “On an Island” e “Today”, suingue jazzístico em “The Girl in the Yellow Dress”… Tudo com “aquela” guitarra de Gilmour, fosse a sua famosa “Black Strat” – uma Fender Stratocaster preta comprada em 1970 em Nova Iorque depois que todo o equipamento do Pink Floyd foi roubado no meio de uma turnê – ou uma descascadíssima Fender Esquire de 1955, a mesma que ele usou na capa de um de seus álbuns solo, About Face (1984). Sempre secundado por uma boa banda de apoio e com um integrante ilustre: o guitarrista Phil Manzanera, ex-Roxy Music e co-produtor dos dois mais recentes álbuns de Gilmour. Nem preciso escrever que ninguém na plateia tinha a menor ideia de quem era aquele “outro tiozinho”, né?

O bis com “Time” e “Comfortably Numb” foi a cereja de um lindo bolo que alguns botocudos na plateia tentaram estragar com suas indiferenças e maus modos. Ainda bem que a música e o bom senso venceram naquela noite…

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