Na Mira do Regis

Discos que tinham tudo para dar certo, mas deram MUITO errado – parte 1

Você já sensação de ter sido enganado ao ouvir um determinado disco pela primeira vez? Aquele incômodo que vem de dentro da alma, que parece transformar o seu fígado em uma chaleira com água fervente?

Pois é, isto acontece quando você cria algum tipo de expectativa em relação ao próximo álbum de seu ídolo e de sua banda favorita, e os caras aparecem com uma merda babilônica, a ponto de você checar se está realmente ouvindo o disco que tem em mãos.

Pode apostar que isto já aconteceu, acontece e vai acontecer para sempre, até o final de seus dias. Eu mesmo, em minha profissão, tento não esperar nada de quem quer que seja antes de ouvir o novo disco de alguém, mas mesmo assim ainda sou surpreendido por verdadeiras "bombas".

Abaixo, selecionei três discos que causaram muita surpresa desagradável em quem gosta de música com seriedade. Claro que milhares de fãs "baba-ovos", entorpecidos por uma idolatria cega — e burra como a de um asno — sempre vão defender estas porcarias. Bem, cabe a você ouvir, ponderar os meus argumentos e chegar às suas próprias conclusões...

ST. ANGERMetallica
Fruto de uma tremenda indecisão criativa, este disco seria o passo decisivo para apagar a má impressão causada nos fãs mais radicais e desmiolados da banda, que não engoliram a sonoridade do grupo nos dois discos anteriores, os injustamente criticados Load e Reload. "Seria", mas não foi.

Buscando uma "inovação", sem baixista e com fortes conflitos internos, a banda entrou no estúdio e gravou uma coleção de canções sofríveis, com uma agressividade barata e falsa. Tudo foi permeado por horríveis sons de bateria — a impressão é que Lars Ulrich gravou tudo batucando latas de goiabada -, ausência de solos de guitarra por parte de Kirk Hammett mesmo quando a música pedia exatamente isto, e o pior: com uma produção confusa e sem um direcionamento concreto.

Quando a gente ouve coisas como a faixa-título e "Unnamed Feelings", dá para sacar que alguma coisa estava muito errada com a banda.

ASYLUM — Kiss
A coisa já não vinha bem... Obrigados a abandonar a maquiagem para criar um "fato novo" que elevasse a venda de seus discos e de ingressos para os seus shows, o Kiss acabou redirecionando o seu som para o então emergente "hard rock/pop farofa" que vinha fazendo a fama de bandas de quinta categoria da Califórnia.

Tentando embarcar na onda, Gene Simmons e Paul Stanley capitanearam uma mudança de rumo que resultou em um disco muito ruim, Animalize, lançado em 1984, mas que tinha lá duas ou três canções não mais que razoáveis. Só que até mesmo os fãs mais radicais do quarteto não estavam preparados para, um ano depois, receber o terrível Asylum.

Marcando a estreia em estúdio do bom guitarrista Bruce Kulick - seu irmão, Bob, era um velho parceiro da banda -, o disco tem uma das mais inacreditáveis sequências de canções horríveis da história do rock. Tenho que admitir que é preciso ser muito sem noção para incluir porcarias monumentais como "Who Wants to Be Lonely" — que refrão horrível, meu Deus! -, "Uh! All Night", "Trial by Fire", "Any Way You Slice It", "Radar for Love" e outras barbaridades. Para não dizer tudo é uma imensa porcaria, "Tears Are Falling" até que poderia ter sido incluída em um dos dois discos solo do Paul Stanley. Não mais que isto.

E para quem pensa que esta tremenda merda dentro da discografia do grupo foi um "acidente", o lançamento do igualmente pavoroso Crazy Nights dois anos depois foi a prova de que o Kiss estava irremediavelmente desorientado, totalmente grogue em termos criativos e em um estado de torpor do qual só veio se recuperar quando o baterista Eric Singer substitui o falecido Eric Carr e a nova formação gravou o estupendo Revenge. Mas isto é outra história.

HOT SPACE — Queen
"O horror… O horror…" A célebre frase dita pelo Coronel Kurtz — interpretado por Marlon Brando no filme Apocalypse Now - definem muito bem o que significa este disco para a história do rock e, por que não dizer, da música mundial em todos os tempos.

Surpresos com a boa receptividade comercial do álbum anterior, o razoável The Game, Freddie Mercury e seus amigos vislumbraram a possibilidade de ganhar muita grana ao tornar seu som mais próximo da sonoridade new wave em voga na época e ainda mais palatável para as rádios.

Com exceção do ótimo dueto com David Bowie em "Under Pressure", Freddie Mercury arrastou a banda inteira para dentro de canções medíocres, insípidas, com interpretações abaixo da crítica em termos de espontaneidade, principalmente para quem tinha uma voz como a dele.

É inacreditável que os caras tenham realmente pensado que aberrações como "Body Language", "Back Chat" e "Las Palabras de Amor" — é de chorar de tristeza ver e ouvir a banda tentando soar como um Supertramp de oitava categoria - pudessem arregimentar novos fãs, agradar aos admiradores e vender mais discos. O resultado foi um disco sem qualquer vestígio de alma, frio como o cadáver de uma foca.

A obviamente péssima receptividade deste monte de lixo foi tamanha que os integrantes da banda começaram a brigar muito nos bastidores por causa desta grande mancada, a ponto de encurtarem a turnê promocional do disco e darem férias a si mesmos, para que cada um fizesse o que bem entendesse, só que um longe do outro. Foi por isto que todos, com exceção do tranquilo baixista John Deacon, se meteram em tentativas de alavancar carreiras solo que foram igualmente um fiasco.

Carregando...

Sobre Regis Tadeu

Regis Tadeu é crítico musical, jurado do Programa Raul Gil, colunista/produtor/apresentador do portal do Yahoo, produtor/apresentador dos programas Rock Brazuca e Agente 93 na Rádio USP FM e foi Diretor de Redação/Editor das revistas Cover Guitarra, Cover Baixo e Batera.

Siga o Yahoo Notícias