Na Mira do Regis

Dois geniais tecladistas brasileiros foram silenciados para sempre – parte 1

Eu não deveria ficar triste ou com raiva quando grandes artistas morrem sem o devido reconhecimento. Afinal de contas, faço parte de um tipo de povo que não reverencia as grandes personalidades de nossa História, que não dá a mínima importância à cultura, que acha que o Luan Santana e o tal de Gusttavo Lima são mais importantes que o Chico Buarque. Por que eu deveria me indignar contra este descaso se moro no país onde tudo se resume a ser famoso e aparecer na TV a qualquer preço?

Mas eu não consigo fazer parte desta massa de bucéfalos que solta uma baba saliva elástica e bovina — obrigado, Nelson Rodrigues! — pela boca toda vez que ouve a palavra "sucesso". É por isto que fiquei indignado com a inacreditável negligência da imprensa em geral ao tratar da morte de dois de nossos mais brilhantes instrumentistas, ambos tecladistas da mais alta estirpe dentro da história da música brasileira.

Hoje eu escrevo a respeito de um deles...

José Roberto Bertrami foi, ao lado de outros dois extraordinários músicos - o baixista Alex Malheiros e o baterista Ivan "Mamão" Conti —, um dos vértices de um triângulo musical esplendoroso e criminosamente subestimado no Brasil, mas não na Europa e nos Estados Unidos: o trio Azymuth.

A música notadamente instrumental dos caras recebeu no exterior a mesma atenção que lembro de ter tido quando, com quinze anos de idade, saquei que havia algo diferente rolando na trilha sonora de uma novela da Globo, Cuca Legal, em 1975. A música "Linha do Horizonte" tinha algo que até então não havia ouvido na TV. O que mais me chamou a atenção foi a união entre uma harmonia simples, uma melodia lindíssima e teclados tocados com uma delicadeza ímpar.

Depois fiquei sabendo que os caras formavam uma banda de apoio para incontáveis artistas nos estúdios — de Raul Seixas a Maria Creuza, de Belchior a Odair José, entre tantos outros — e foi justamente este ecletismo que fez com que a banda mostrasse em seu primeiro disco, Azymuth (1975), uma sonoridade absurdamente cativante em uma época em que só queríamos ouvir "rock pauleira".

Por causa da exposição na TV, o sucesso dos caras com este disco foi de tal proporção que o trio foi a primeira banda brasileira a participar do renomado Festival de Jazz de Montreux em 1977. Foi o bastante para a 'gringaiada' ficar de queixo caído com a sonoridade dos caras, que misturava jazz/rock — ninguém empregava o termo "fusion" naquela época -, samba, funk e MPB. Foi isto o que escancarou as portas para longa e sólida carreira internacional a partir do lançamento do álbum Light as a Feather em 1979. Daí para o estouro mundial de "Jazz Carnival" e "Dear Limmertz", seguidas por uma grande discografia lançada na Europa e nos Estados Unidos — e quase nada no Brasil - foi um passo...

Empunhando teclados elétricos e sintetizadores analógicos, Bertrami era daqueles músicos que, tendo seu nome na ficha técnica de qualquer disco, era sinônimo de compra na certa — lembro-me de ter feito isto em relação a um disco de Jorge Ben, África Brasil (1976), no qual ele foi o arranjador.

Só parou de tocar quando foi internado em um hospital há dois meses. De lá saiu morto, dia 8 passado, quando uma insuficiência hepática o levou.

Amanhã, vou escrever a respeito do outro talentoso músico brasileiro que se foi. Por hora, veja os vídeos abaixo e tente não se sentir cada vez mais deprimido com a falta de memória deste país...

Carregando...

Sobre Regis Tadeu

Regis Tadeu é crítico musical, jurado do Programa Raul Gil, colunista/produtor/apresentador do portal do Yahoo, produtor/apresentador dos programas Rock Brazuca e Agente 93 na Rádio USP FM e foi Diretor de Redação/Editor das revistas Cover Guitarra, Cover Baixo e Batera.

Siga o Yahoo Notícias