Na Mira do Regis

Dois geniais tecladistas brasileiros foram silenciados para sempre – final

Esta semana escrevi a respeito de dois tecladistas que se foram: Jon Lord, ex-Deep Purple, e José Roberto Bertrami, do grupo brasileiro internacionalmente conhecido Azymuth. Falta um, muito menos conhecido que os outros dois para quem tem menos de 40 anos de idade, mas uma figura fundamental para a história da música brasileira para os mais velhos.

Ed Lincoln morreu segunda-feira passada, aos 80 anos, vitimado por uma insuficiência respiratória, agravada por uma infecção e por uma grande dificuldade em se movimentar devido a um problema na coluna derivado de um acidente que sofreu em 1963.

E "movimento" era uma palavra-chave na vida deste tecladista, compositor e arranjador cearense. Durante toda a sua carreira, Lincoln foi uma incansável presença na noite musical do país, tocando órgão de uma maneira absolutamente incrível. Não foi à toa que ele ficou conhecido como o "rei dos bailes" na década de 60.

O fato de ter começado a sua carreira como baixista, ao lado do espetacular pianista Luiz Eça e do subestimado guitarrista Paulo Ney — dê uma xeretada nos discos dos seus pais e veja se eles têm o LP Uma Noite no Plaza -, lhe deu um background a mais quando ele passou a tocar piano e o órgão Hammond que o tornaria nacionalmente famoso. Isto sem contar que eu defendo a ideia de que ele foi um precursor da bossa — ouça o disco que ele gravou em 1956 o LP Noite e Dia, ao lado do estupendo mestre do violão Luiz Bonfá, de um então jovem compositor e também violonista chamado Carlos Lyra ao violão e do não menos talentoso baixista Luiz Marinho.

E foi aí que a grande genialidade de Lincoln apareceu. Ele criou um novo estilo de samba — que foi chamado de "sambalanço" -, absurdamente sincopado e repleto de ritmos "entorta esqueleto", preenchido com as notas e acordes quase polifônicos de seu órgão, um som perfeito para animar as noitadas nos salões de bailes daquela época. A maneira como ele conduzia cada tema que tocava equivalia a muitas aulas de música para quem o via tocar. Além disto, Lincoln tinha uma personalidade generosa, a ponto de ensinar infindáveis truques musicais a quem quer que tocasse ao lado dele. Pode apostar que o termo "samba-rock" jamais existiria se não fosse por Ed Lincoln.

Nem dá para contar quantos discos ele gravou, tamanha é a quantidade de LPs lançados com seu próprio nome e até mesmo sob a alcunha de pseudônimos — algo muito comum naquele tempo por conta de razões comerciais, cláusulas contratuais e até mesmo por sacanagem -, como 4 Cadillacs, Don Pablo de Havana, The Lovers e Berry Benton.

Quando o lance dos grandes bailes saiu de moda nos anos 70, Lincoln não se apertou e foi mexer com a criação de jingles publicitários e trilhas sonoras. Interessadíssimo por novas tecnologias, ele foi um dos primeiros instrumentistas no Brasil a fazer experiências com computadores e música — no final dos anos 80, chegou a gravar um disco inteiro, Toque Novo, em um protótipo de microcomputador. A conexão com a modernidade e o seu irresistível balanço fizeram com que ele fosse "descoberto" por uma nova geração de DJs britânicos a partir dos anos 2000.

Mas Ed Lincoln se foi. Por isto, não deixe de ouvir as dezenas de discos que ele gravou e não perca o documentário Ed Lincoln - O Rei do Sambalanço, do diretor Marcelo Almeida, filmado em 2010 e que já está na etapa de finalização. Quem não conhece a riqueza da música que saía daquele órgão esquisito vai se surpreender. Veja alguns exemplos abaixo e delicie-se com a "ginga saracoteante" que ele criava...

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Sobre Regis Tadeu

Regis Tadeu é crítico musical, jurado do Programa Raul Gil, colunista/produtor/apresentador do portal do Yahoo, produtor/apresentador dos programas Rock Brazuca e Agente 93 na Rádio USP FM e foi Diretor de Redação/Editor das revistas Cover Guitarra, Cover Baixo e Batera.

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