“Dor de corno” de Norah Jones rende ótimo disco

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Na Mira do Regis

Muita gente costuma curar as dores da separação das mais diversas formas. Alguns caem na farra, outros se recolhem em momentos de introspecção e assim por diante.

Artistas mais sensíveis costumam colocar tais dissabores em suas obras. Marvin Gaye, por exemplo, chegou a gravar um disco inteiro, Here My Dear, só para falar mal da ex-mulher e de como as vendas do referido álbum serviriam para pagar as despesas do divórcio e a pensão alimentícia, um troço baixo astral pra cacete, mas que rendeu ótimas canções.

E foi justamente isto que a bela e talentosa cantora e multiinstrumentista Norah Jones fez em seu mais recente disco, só que com uma elegância de arrepiar. Em Little Broken Hearts, ela mostra que a velha máxima "lindas canções são compostas quando seus autores estão na merda" é a pura verdade. Cada canção é incapaz de nos levar a algum tipo de sobressalto e sim de nos manter dentro do caleidoscópio depressivo da cantora, só que embrulhado em um delicado papel melódico-harmônico, coeso e firme, que quase chega a camuflar a dor da cantora.

A delicadeza com que Norah abre o disco já captura o coração e a mente de quem quer que seja. "Good Morning" é uma daquelas canções que transporta a gente para uma paisagem belíssima e calorosamente gelada — quem nunca adorou sentir o sol e o vento gelado no corpo e na alma ao mesmo tempo?

"Say Goodbye" e "Out on the Road" são leves e divertidas em suas sonoridades, o que contrasta com as letras docemente amarguradas. As coisas ficam bem mais encaixadas nas tristes ternuras de "She's 22", "Travelin' On" e "Take It Back", com a voz de Norah lambendo nossos ouvidos de modo tão doce que fica difícil não se tornar cúmplice de sua dor-de-corno.

"All a Dream", "4 Broken Hearts" e a faixa-título são exemplos de que Norah é atualmente fã da sonoridade obscura e rude do Tom Waits, só que com um acento pop irresistível, como se fosse uma espécie de Marianne Faithfull sóbria. Aliás, já faz certo tempo que ela abandonou a elegância jazzística que exibiu em seu disco de estreia, Come Away With Me (de 2002), para ir gradativamente mergulhando em um mundo mais low-fi, quase soturno, mas sem abandonar a arte de tecer harmonias e melodias de fazer chorar o mais sanguinário dos ditadores africanos.

Algumas canções são exemplos de como a melancolia pode soar maravilhosa. "Miriam", por exemplo, enfatiza a elegância com que a tristeza deve ser tratada, ou melhor, esculpida. Mesmo nos momentos mais "pop" — "After the Fall" e "Happy Pills", por exemplo -, Norah expõe alguns detalhes de seus sentimentos que não passam despercebidos por um ouvinte mais atento.

A produção, a cargo do requisitado Brian Burton — o nome verdadeiro de Danger Mouse, a metade do duo Gnarls Barkley, que revelou ao mundo a voz potente de Cee Lo Green e que produziu ótimos discos do Beck e do Black Keys — se mostra quase um instrumento à parte, tamanha é a coesão e bom gosto nos timbres de cada canção que imprimiu ao longo do disco.

É, exorcizar seus demônios carentes e melancólicos por intermédio a música é muito mais que uma simples terapia...