E Lincoln Olivetti, gênio dos estúdios e dos arranjos na música brasileira, morreu...

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Um bom humorista é aquele que conta uma boa piada. Um bom comediante é aquele que a transforma em algo ainda mais engraçado. Se tal analogia pode ser empregada na história da música brasileira, Lincoln Olivetti foi um dos nossos melhores “comediantes”. Poucas pessoas souberam pegar uma canção muitas vezes medíocre e transformá-la em algo classudo, com um padrão sonoro que em nada ficava a dever ao que ouvíamos em sons internacionais durante as décadas de 70 e 80.

Maestro, compositor, arranjador e produtor, ele mostrou que nossos padrões de gravação, em termos de sonoridade, eram uma piada. Suas ideias musicais cavaram a vigorosas enxadadas o seu lugar em um mundo dominado pela falta de recursos técnicos em termos de equipamentos e de informação dos profissionais envolvidos, o que serviu, inclusive para iluminar a verdade de que não sabíamos gravar.

Foi ele que estabeleceu um padrão de disciplina na hora de arranjar e executar os instrumentos que só se via nos estúdios americanos com produtores renomados. Tecnicamente então, Olivetti era visto pelos músicos com quem trabalhou como um ser superior de outro planeta.

O time formado por artistas a quem Olivetti deu a dádiva de seus serviços e de sua mentalidade na hora de timbrar instrumentos e elaborar arranjos que fugissem da pobreza que impregnava grande parte da música brasileira é imenso: Tim Maia, Rita Lee, Fagner, Lulu Santos, Gal Costa, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Jorge Bem… Até mesmo um sujeito extremamente meticuloso e chato dentro do estúdio - Roberto Carlos -, sucumbiu à qualidade de Olivetti.

Sim, ele tinha a capacidade de transformar em ouro as merdas que estes artistas faziam. Botou seus esforços a serviço de muita porcaria, mas este era – e ainda é – o jogo de um produtor diferenciado: tentar melhorar algo que é ruim de nascença, saber como fazer para que qualquer música soe bem. Não foi à toa que, nos anos 80, Olivetti trabalhou em quase todas as trilhas de novelas da Globo que você pode imaginar: Dancin’ Days, Feijão Maravilha, Plumas e Paetês, Baila Comigo, Mandala

Ele foi um “geniozinho” precoce. Que outro nome se dá a uma criança que começa a estudar piano com três anos de idade e aos catorze já está tocando em bandas de baile no subúrbio do Rio de Janeiro?

Sua parceria com Robson Jorge, iniciada em 1976, deu a ele a oportunidade de trabalhar com alguém que entendia e executava bem as suas ideias, além de ter resultado em um disco criminosamente subestimado pelo público e pela crítica da época, o sacolejante e instrumental Robson Jorge e Lincoln Olivetti, lançado em 1982 e hoje considerado um dos ápices da soul music tupiniquim.

Embora nunca tenha saído do País, o som de Olivetti era internacional, no melhor sentido da palavra em termos de qualidade sonora. Quando você comparava o padrão sonoro de suas produções com aquele presente em discos do Toto e do Earth, Wind & Fire, dava para perceber que os resultados eram “pau a pau”. Olivetti conseguiu domar a preguiça dos técnicos de gravação tupiniquins e mostrar que valia a pena ter um trabalhão no estúdio para se ter um ótimo resultado em termos de timbres e até mesmo de execução dos músicos envolvidos.

Como produtor, nunca lhe faltou o tempo da nota certa no lugar certo, do ritmo suingado e sincopado, da precisão na execução de cada instrumento. Havia humor em seus arranjos, até porque o intuito final deste ofício é a graça de construir - e melhorar! - aquilo que cada canção pede. Se houve alguém aqui no Brasil cujo trabalho possa ser comparado ao que o maestro e produtor Quincy Jones fez pela música pop americana, este mestre foi Olivetti.

Só que a alegria desapareceu da vida de Olivetti quando ele passou a ser massacrado por certo setor da imprensa musical elitista, acusado de ter tornado a música brasileira “comercial e pasteurizada”. Ninguém lembrou que os próprios artistas queriam as suas canções desta forma para continuar a tocar nas então recém inauguradas emissoras de rádio FM.

Em vez de bater boca com seus detratores, ele preferiu se recolher em silêncio e se tornar um sujeito recluso. Quase nunca dava entrevistas. A estupidez com que foi tratado por grande parte da imprensa dita “especializada” foi algo de revoltante, pois no fundo sabíamos o que ele estava certo. Só que era vergonhoso admitir na época. Quer os críticos queiram ou não. Se a música brasileira passou a ter um novo suingue a partir daquela época, foi por causa dele. Pena que percebemos isto muito tarde…

Ele morreu ontem, aos 60 anos, vitimado por um infarto fulminante. Em uma terra que reverencia as merdas musicais que rolam nos programas do Faustão e da Regina Casé, é provável que ele não receba as devidas homenagens, o que só evidencia os tempos cretinos em que vivemos atualmente.

Abaixo, separei algumas faixas do álbum que ele gravou com o falecido Robson Jorge e algumas canções famosas cujos arranjos e timbres saíram diretamente da cabeça e da alma de Olivetti. Aproveite e aprenda…

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