Fãs de Dream Theater = fãs de Miley Cyrus e a infantilização do debate

r-tadeu
Na Mira do Regis

"Você fala merda da banda porque é um recalcado", "você tem inveja por não saber tocar como eles”, “como teve coragem de falar de quem é Deus?”, “eles são muito melhores que qualquer porcaria de forró e funk carioca, que só falam de putaria e ostentação”, “você deve gostar de axé, sertanejo, pagode e funk daqueles que a mulherada rebola até o chão”, “seu idiota, eles são sinônimos de qualidade”, “pelo visto, você só quer ganhar ‘likes’ com suas opiniões polêmicas”, “esperava mais de você quando decidi acompanhar seus textos”, “gostava do que você escrevia, mas agora nunca mais vou ler qualquer coisa que tenha o seu nome”, “para fazer qualquer julgamento você tem que ser no mínimo igual ou melhor que eles; “deve ser triste você ter que sobreviver falando mal de talentos mundialmente reconhecidos”, “enquanto você fala mal da banda, eles estão cada dia mais poderosos”, “se fosse ruim, não eram famosos e nem teriam uma legião de fãs”, “seu texto prova como você é um cara desprezível”, “cale a boca, pois vivemos em um país tupiniquim pobre de talentos, e você, como é conceituado, deveria fazer uma campanha para colocar gente brasileira de talento na mídia”…

Lendo tudo isto, responda rápido: de quem são os fãs que tiveram o trabalho de enviar dezenas de comentários com este mesmo tom de infantilidade? Miley Cyrus? Lady Gaga? Michael Jackson? One Direction? Se você respondeu algum destes nomes, errou feio. Todas estas “maduras” mensagens vieram de fãs do… do… Dream Theater!

Sim, estas foram algumas das centenas de mensagens que recebi por conta do comentário que escrevi a respeito das apresentações da banda americana que estão rolando no Brasil.

Era só o que faltava: gente teoricamente crescida e musicalmente mais encorpada – afinal, idolatram uma banda reconhecida por seu absurdo apuro técnico na hora de empunhar seus respectivos instrumentos - fazendo ‘mimimi’ por conta de algo que escrevi a respeito do grupo aqui no Yahoo. Gente com barba na cara! A reação de alguns fãs foi tão histérica que deu a impressão que eu tinha escrito que “Jesus foi o pai do black metal”. Será que está rolando uma diminuição no nível de testosterona desta geração?

Ah, antes de continuar, tenho que confessar: dou muitas risadas com todos os comentários negativos em relação a mim, ao que escrevo e ao meu trabalho em geral, pois a minha já conhecida sinceridade acaba despertando nas pessoas exatamente aquilo que desejo: que o leitor/ouvinte/telespectador saia da sua “zona de conforto quentinha e feliz” e se manifeste. Contra ou a favor, isto não importa. A tomada de posição é que se torna interessante para mim.

Neste caso específico, em que pessoas adultas usaram uma argumentação tão pífia e infantilóide, cabe uma reflexão: mais do que estagnada, nossa sociedade está regredindo intelectualmente como um todo?

A maneira como os fãs se comportam nos dias de hoje traz embutida uma raiva contra quem se recusa abaixar a cabeça e dizer “amém”. Isto exemplifica a era em que vivemos, na qual qualquer crítica, por melhor embasada que seja, é recebida como grave ofensa pessoal. Tudo fica mais grave quando estes pastiches de dogmas são oriundos de pessoas que aparentemente se recusam a crescer emocionalmente. E isto vale para todos: de quem ama o heavy metal ao ardoroso frequentador de shows de sertanejos universitários. Pessoas de 30, 35 anos de idade escrevendo como uma criança de 14. É tudo tão infantil que chega a preocupar…

No caso específico do universo que envolve o Dream Theater e seus fãs, há ainda uma excessiva glorificação da “técnica” em detrimento à qualidade das composições. Isto vem levando, por exemplo, a uma valorização de músicos patrocinados por diversas marcas de instrumentos musicais no Brasil que nunca lançaram um trabalho autoral e jamais fizeram um show na vida, que mostram seus “trabalhos” tocando/solando por cima de playbacks sentados nas camas de seus respectivos quartos.

Esta turma também comete o erro de valorizar quem faz músicas longuíssimas, dizendo “uau, a banda soltou um disco com músicas de 23 minutos”, como se a duração fosse sinônimo de qualidade. Não foram poucos os fãs de Dream Theater que, ao tentarem me ofender, compararam o som da banda a obras de compositores eruditos, como Beethoven e Mozart, o que é uma prova total de demência da parte deles…

A capacidade de argumentação das pessoas se torna cada vez mais reduzida. Palavras como “inveja” e “recalque” aparecem com uma frequência assustadora em qualquer debate. Do jeito que a situação caminha, no futuro a chupeta será um acessório tão imprescindível quanto o celular…