Na Mira do Regis

Gore Vidal morreu e deixou o planeta ainda mais burro

O cara era muitos ao mesmo tempo: escritor, roteirista de cinema, romancista, ensaísta e mais um monte de coisas ligadas à arte, à cultura e também à política.

Gore Vidal era uma legião dentro de um único corpo. E ele se foi ontem, aos 86 anos, vitimado por uma pneumonia, mas deixou uma coleção de obras — Hollywood, 1876, Era Dourada, Lincoln e Juliano, Apóstata, entre tantas outras - capaz de deixar qualquer intelectual de meia tigela com cara de cachorro perdido durante a mudança. O fato de ele nunca ter ser sido laureado com um prêmio Nobel de Literatura é um dos mistérios a ser desvendados nos próximos anos.

No cinema, ele continuou a sua trajetória de polêmicas quando foi o roteirista dos filmes Paris Está em Chamas? (1966) e Calígula (1979). Suas peças de teatro sempre obtiveram um tremendo sucesso porque o público sabia que encontraria um texto desconcertante e inteligentíssimo sobre política, sexo e cultura, que faria todo mundo voltar para casa pensando de maneira diferente.

Mas era quando resolvia criticar política oficial — qualquer uma - dos Estados Unidos que o primo do Al Gore e meio-irmão da Jacqueline Kennedy se agigantava perante os intelectuais americanos. Um de seus ensaios, United States Essays, 1952-1992, tinha que ser traduzido para o Português e se tornar leitura obrigatória em todas as faculdades do Brasil, infestadas de alunos preguiçosos que só querem saber de beber cerveja e transar durante seus cursos acadêmicos. A maneira como ele satirizou o estilo de vida do americano médio, burro, excessivamente religioso e preconceituoso é de chorar de rir.

Sua vontade de interferir para melhor na vida de seu País o levou a tentar entrar para a política. Depois de ter participado ativamente da turma mais liberal do Partido Democrata, ele concorreu ao Senado pela Califórnia e quase levou a cadeira quando obteve mais de 500 mil votos, uma quantidade incrivelmente insuficiente para a sua empreitada.

Durante toda a sua vida, Vidal foi uma implacável e cáustica metralhadora verbal, disparando frases sensacionais em todos os momentos, muitas vezes explicitando a sua própria egolatria. Ele não poupava sequer alguns de seus colegas contemporâneos. Para ele, Truman Capote era um "gambá imundo que conseguiu entrar dentro de casa", enquanto Ernest Hemingway não passava de uma "piada que bebia como poucos e escrevia como muitos". Separei algumas de minhas favoritas abaixo...

"Estilo é saber quem você é, o que quer dizer e não dar a mínima".

"Nada é mais grotesco do que dois americanos se congratulando por ser heterossexuais. Isto só acontece nos Estados Unidos. Nunca vi dois italianos se congratulando por gostar de mulheres. Para ele, isso é normal".

"Um escritor deve sempre dizer a verdade, a não ser eu seja um jornalista".

"Metade dos americanos nunca votou para presidente e metade jamais leu um jornal. Esperamos que seja a mesma metade".

"Quando alguém me pergunta se posso guardar um segredo, respondo: 'Por que eu deveria, se você mesmo não pode?'"

"Nunca tenha filhos, apenas netos".

"Hoje as pessoas públicas não são capazes de escrever seus discursos ou mesmo suas memórias. Duvido que sequer saibam ler".

Carregando...

Sobre Regis Tadeu

Regis Tadeu é crítico musical, jurado do Programa Raul Gil, colunista/produtor/apresentador do portal do Yahoo, produtor/apresentador dos programas Rock Brazuca e Agente 93 na Rádio USP FM e foi Diretor de Redação/Editor das revistas Cover Guitarra, Cover Baixo e Batera.

Siga o Yahoo Notícias