"Grammy" continua não servindo para p... nenhuma

r-tadeu
Na Mira do Regis

Tinha prometido a mim mesmo que jamais voltaria a comentar qualquer premiação do Grammy. Com o passar dos anos, cheguei àconclusão que não valia mais a pena escrever as mesmas coisas de sempre: queeste tipo de espetáculo pouco engraçado e deprimente, um retrato fiel de uma indústriamusical ainda insiste em arrastar correntes por aí, tal qual uma alma penada em busca de algum tipo de redenção.


“Tinha prometido”, porque hoje volto a abordar este assunto por conta da quantidade de gente que entrou em contato comigo por e-mail e, principalmente, pelas redes sociais, pedindo para que eu escrevesse algo a respeito do que aconteceu no último domingo.


Não vou aqui detalhar tudo o que vi porque simplesmente não tive saco para aguentar uma transmissão de três horas e meia de um desfile de momentos constrangedores e de baixíssimo nível musical/artístico como um todo. Para piorar, o clima de “marmelada” reinante afasta qualquer possibilidade de se assistir a este troço com algum tipo de prazer ou surpresa.

Dar ‘trocentos’ troféus para um tal de Sam Smith, um sujeito que parece funcionário de uma sorveteria inglesa metido dentro de um terno, seria uma boa piada caso a premiação do Grammy fosse um programa humorístico. E o moleque ainda faturou o prêmio de “Melhor Canção de 2014” com um plágio sem vergonha de “I Won’t Back Down”, do Tom Petty, que agora recebeu o título de “Stay With Me”.

Para tornar a experiência de assistir a este troço ainda mais desagradável, alguém teve a brilhante ideia de deixar tudo com cara de American Idol, com apresentações solo e em duetos, tudo armado com a perspicácia de um operador de periscópio de submarino.

Botar o lendário Herbie Hancock para tocar piano para o insosso Ed Sheeran na chatíssima “Thinking Out Loud” deveria dar uns quinze anos de cadeia para o autor da ideia. A bonita e, ao mesmo tempo, asquerosa Gwen Stefani não tem gabarito sequer para ajudar a colocar alfinetes nos vestidos das grandes cantoras do passado, mas se meteu a cantar com uma orquestra ao lado do insuportável Adam Levine, o que resultou em algo parecido como um tema de desenho animado para crianças com problemas de musgo dentro das orelhas. 

Outra vergonha foi colocar o grande Tom Jones em dueto com a tal de Jessie J, uma menina cuja voz dá o mesmo prazer que beber um uísque bem vagabundo com uma sardinha em estado de decomposição dentro do copo. Enquanto o cantor inglês deu um banho de interpretação na antológica “You’ve Lost That Loving Feeling”, Jessie cantou como se tivesse os pulmões entupidos por espuma de barbear.

Mas poucas coisas foram tão insuportáveis quanto presenciar cantoras de diferentes gerações tendo algo em com um: a falta de senso de ridículo. Se a novinha Ariana Grande cantou uma de suas péssimas canções com um timbre de voz que lembra uma galinha de despacho segundos antes de ser sacrificada em uma encruzilhada, Madonna veio vestida como “toureira de prostíbulo” para mostrar uma canção, chamada “Living for Love”, tão instigante e sexy quanto arrancar as unhas do pé com um alicate enferrujado.  Cada vez mais dependente de seus bailarinos bombados com deficiência de testosterona, ela hoje é uma triste figura a embalar os sonhos de gente que não consegue tomar um sorvete sem lambuzar os cabelos.

Neste momento, você talvez esteja perguntando se não houve nada de bom na premiação. Sim, teve. O melhor momento foi a maravilhosa Annie Lennox mostrando ao cantor irlandês Hozier, seu parceiro no dueto com a clássica “I Put a Spell on You”, do malucaço Screaming Jay Hawkins, como uma cantora deve fazer para transformar uma canção em algo sublime. Até a temperamental Nina Simone - cantora/pianista que cunhou uma interpretação histórica para esta mesma canção -, aplaudiria de pé. Beyoncé, cada dia mais linda e gostosa, também mandou muito bem na recriação de “Take My Hand, Precious Lord”, hino gospel famosíssimo nos Estados Unidos. E até mesmo Lady Gaga não deixou seu parceiro, o veterano Tony Bennett, passar vergonha ao cantarem juntos a mitológica “Cheek to Cheek”, de Irving Berlin. E o AC/DC, claro, com o retorno do ótimo batera Chris Slade e com Steve Young, sobrinho de Angus e do adoentado Malcolm, na guitarra-base.

No setor das premiações, foram justos os troféus para Pharrell Williams, com a sua deliciosa “Happy”, e para Beck, que ganhou com merecimento o prêmio de “Melhor Álbum” com o seu lindíssimo Morning Phase. Agora, dar troféu de “Melhor Performance de Metal” para o Tenacious D - a dupla que o ator Jack Black tem com o também humorista Kyle Gass -, deve ser alguma “pegadinha do Mallandro”. Háaaaaaaaa!!!

Não há a menor dúvida que a música pop de mainstream passa por uma de suas piores fases – vide o resultado medíocre da atração mais esperada da noite, que reuniu Paul McCartney, Rihanna e Kanye West, que de uma mediocridade atroz -, mas pelo menos já dá para sacar que aqueles horrorosos artistas do moderno hip hop americano pararam de ser catapultados por estas premiações da indústria. E isto é muito bom!

Só falta agora alguém dar um soco no nariz do mala do Kanye West na próxima vez que ele subir ao palco para tentar interromper a premiação de outra pessoa – ele já havia tomado o microfone da Taylor Swift em uma premiação passada e tentou repetir a mesma gracinha agora, quando Beck recebeu seu troféu. Aí sim teremos a certeza que o mundo voltou a girar de modo harmonioso…