Na Mira do Regis

Jon Lord foi o cara que uniu rock e música erudita em um mesmo universo

Conheço muita gente que passou a se interessar por órgãos Hammond por causa dele. Também sei que toda a minha geração ficou coçando o queixo tentando entender como um sujeito tinha conseguido encontrar uma maneira de unir o rock e a música erudita de modo tão legal em um álbum chamado Concerto for Group and Orchestra, um "estranho no ninho" dentro da discografia do Deep Purple.

Lançado originalmente em 1969, o LP só chegou ao Brasil anos depois, com um atraso inacreditável para os padrões atuais, mas algo comum naquela época, um tempo em que um sujeito era "roqueiro cabeludo" ou "caretaço amante de música erudita". Nunca as duas coisas ao mesmo tempo.

Pois a maneira como o tecladista e compositor Jon Lord rompeu esta barreira e fez com que estes dois universos aparentemente colocados em posições opostas passassem a dialogar um com o outro foi um troço muito mais pioneiro do que as pessoas imaginam. Foi simplesmente brilhante, ainda que a crítica "especializada e mudéerrrrna" torça o nariz para tal obra.

Puta bobagem. O citado disco foi determinante para que um monte de bandas bacanas de rock surgisse na primeira metade dos anos 70 utilizando elementos desta mistura, que acabou gerando belíssimas obras daquilo que se passou a chamar de "rock progressivo". Ao contrário do que diz uma grande parcela de críticos esnobes e pseudointelectuais - que acha muito "cool" celebrar os discos do David Bowie do mesmo período sem mencionar que estes foram sim influenciados pelo então novo estilo -, a união entre rock e música erudita teve em Jon Lord um pioneiro indiscutível.

O desejo de unir áreas até então distintas já havia se manifestado logo nos primeiros discos do Deep Purple, como nas canções "Anthem", do álbum The Book of Taliesyn (1968) e "April", do disco Deep Purple (1969). Classificado na época como "pretensioso" por quase todos os críticos — tanto aqueles da seara rocker como pelos profissionais da área erudita —, Concerto for Group and Orchestra, gravado no imponente Royal Albert Hall em 1969, foi uma espécie de "manifesto musical" a favor do amálgama proposto por Lord, e que também marcou na época as estreias de novos integrantes no Deep Purple - o vocalista Ian Gillan e o baixista Roger Glover. Foi a partir daí que a banda se tornou mitológica nos corações e mentes de quem, como eu, era moleque naquela época.

Pouca gente sabe, mas grande parte dos maravilhosos riffs gravados pelo Deep Purple foi criada por Lord e não pelo guitarrista Ritchie Blackmore, como são os casos de "Perfect Strangers", "Stormbringer", "Space Truckin'", "Lazy" e mais um monte de outros, muitos deles influenciados por toda a bagagem musical que o tecladista construiu a partir de seus profundos estudos a respeito das obras de grandes compositores eruditos, como Bach e Mozart, além de um sem número de peças medievais.

No fundo, Lord tinha muito pouco a ver com dois de seus mais famosos colegas da época - Keith Emerson, do Emerson, Lake & Palmer, e Rick Wakeman, do Yes —, pois além da música erudita, o negócio dele também era curtir os sons de Jimmy McGriff, Jimmy Smith e Jerry Lee Lewis. Lord misturava tudo isto em um imenso caldeirão que havia dentro de sua cabeça. Sua incrível capacidade de improvisação era lendária — dê uma ouvida no espetacular Made in Japan (1972) para entender o meu entusiasmo, por favor...

Por isto, ninguém tocava como Lord naquele trambolho de instrumentação, que nada mais era que a conexão entre um órgão Hammond, vários amplificadores valvulados Marshall e as caixas Leslie, com seus alto-falantes giratórios e em formato de cornetas. Era isto que fazia com que ele pudesse solar em volumes tão altos quanto aqueles que saíam dos equipamentos do guitarrista Ritchie Blackmore.

E o cara, além de tudo, era muito gente fina. Lembro como se fosse ontem da entrevista que fiz com ele para a matéria de capa da revista Cover Teclado, da qual fui editor. Fiquei impressionado em constatar que o cara não era um cavalheiro apenas no sobrenome.

Escrevi este texto porque soube que Jon Lord morreu ontem, aos 71 anos de idade, vitimado por um incurável câncer de pâncreas. Não foi exatamente uma surpresa, já que este tipo de tumor — o mesmo que vitimou minha mãezinha querida, a sábia e meiga Dona Irene — é um dos mais agressivos que existem. Além disto, a capa de um dos mais recentes discos de Lord, Blues Project Live (2011) - que você vê aí em cima - já era o retrato inequívoco do sofrimento que o tecladista vinha enfrentando, sendo que ele abandonou o Deep Purple em 2002 justamente pelo extremo cansaço que sentia toda vez que tinha que excursionar.

Enquanto você vê e ouve abaixo alguns momentos que escolhi a dedo para homenagear o Jon Lord, saiba que estou escrevendo outro texto, que postarei aqui ainda esta semana, e que também reverencia outros dois tecladistas que se foram nos últimos dias, só que brasileiros.

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Sobre Regis Tadeu

Regis Tadeu é crítico musical, jurado do Programa Raul Gil, colunista/produtor/apresentador do portal do Yahoo, produtor/apresentador dos programas Rock Brazuca e Agente 93 na Rádio USP FM e foi Diretor de Redação/Editor das revistas Cover Guitarra, Cover Baixo e Batera.

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