Na Mira do Regis

Músicas novas são todas “antigas”

Ontem terminei de ler um livro muito bom, Retromania— Pop Culture's Addiction to Its Own Past, que recomendo para quem gosta de conversar e debater a respeito de música — e que também manje de inglês, já que a obra, infelizmente, ainda não foi lançada no Brasil.

Ele foi escrito por Simon Reynolds, um dos mais renomados críticos musicais da Europa, e tenta explicar algo que suscita horas e horas de conversas para quem tem mais de quatro neurônios em bom funcionamento: os motivos que levam a imensa maioria das músicas que ouvimos nos dias de hoje a ser nada mais do que arremedos de composições antigas.

Mas a leitura deste livro me trouxe outros pensamentos à cabeça...

É claro que não podemos esquecer que a molecada nos dias atuais vem crescendo conectada a computadores, a celulares que funcionam como um computador e mais um monte de traquitanas tecnológicas. E isto em parte explica porque a música para esta turma não tem 8% da importância que teve para a minha geração, por exemplo.

Para mim, hoje transformado em um velho bem humoradamente ranzinza e sarcástico para alguns, ou em um _______________ (coloque aqui o seu insulto favorito) para outros, era na música que ocorriam as grandes manifestações culturais que acabaram influenciando todas as outras artes, os padrões sociais e até mesmo a política.

Quem se ligava de verdade em música fatalmente mergulhava de cabeça na leitura de bons livros, em cinema e mais um monte de outras ferramentas culturais. Hoje, o panorama cultural para as novas gerações, quando ele existe — e se é que ele ainda existe -, tem na música uma ferramenta muito, mas muito secundária em termos de importância e relevância.

O fato de você poder encontrar toda música que quiser de graça na Internet não apenas esquartejou a "galinha dos ovos de ouro" da indústria fonográfica, mas tirou todo o tesão desta turma em ouvir e prestar atenção à música em si. Reynolds, inclusive, mostra que as pessoas antigamente davam mais valor à música porque gastavam dinheiro e tempo para comprar um disco, e por causa disto extraíam tudo o que podiam daquilo que cada álbum tinha a oferecer. E o mais legal era que a grande maioria dos discos só começava a fazer sentido depois de muitas audições.

Isto é exatamente o contrário do que ocorre hoje. Como ninguém paga por nada disto, a molecada tende a negligenciar a obra, ouvindo poucas vezes e sem qualquer atenção, como que dizendo a si mesma "se eu precisar disto, baixo de novo e pronto".

É o que eu escrevi em artigos passados aqui mesmo no Yahoo: as pessoas hoje ouvem música como uma trilha sonora para uma outra atividade qualquer que estejam fazendo. Se você ouve uma canção enquanto está navegando pela Internet ou fazendo qualquer outro troço em seu computador, a última coisa em que vai prestar atenção é na música em si. Cheguei à conclusão de que tudo que é conquistado de modo fácil logo é "depreciado" e, pior, descartado.

Talvez a falta de um "elemento tátil" tenha contribuído imensamente para esta "descartabilidade", principalmente nos dias de hoje, em que discos gravados ao vivo, por exemplo, são tudo, menos "ao vivo". Se bem que as "mexidas" neste tipo de disco já não são de hoje. Meu cérebro foi parcialmente derretido depois que soube que dois de meus "álbuns ao vivo" favoritos em todos os tempos - It's Alive, dos Ramones, e Live and Dangerous, do Thin Lizzy - foram regravados/refeitos em estúdio quase em suas totalidades.

O que quero dizer é que o fato de ouvirmos gravações "geneticamente modificadas" retirou o "tato dos ouvidos" das novas gerações, que passaram a se costumar com uma "perfeição" sonora facilmente manipulável. E se é manipulável, é uma farsa.

E é aí que entra o que Reynolds chama de "reinterpretação do passado". Hoje todo mundo experimenta idéias velhas envernizadas com uma camada de "modernidade e inovação" tão falsa quanto o som pasteurizado e comprimido que sai do seu mp3 player. Para o autor, não há mais a absoluta sensação de novidade e energia do passado.

O que esperar de uma geração de músicos que só conheceram a Internet como referência sonora? De minha parte, sou muito pessimista em relação a isto...

E você?

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Sobre Regis Tadeu

Regis Tadeu é crítico musical, jurado do Programa Raul Gil, colunista/produtor/apresentador do portal do Yahoo, produtor/apresentador dos programas Rock Brazuca e Agente 93 na Rádio USP FM e foi Diretor de Redação/Editor das revistas Cover Guitarra, Cover Baixo e Batera.

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