Na Mira do Regis

Meio século de carreira dos Rolling Stones é a vitória da perseverança


Dê uma olhada na foto ao lado. Mais do que mostrar Mick Jagger, Keith Richards, Ronnie Wood e Charlie Watts na frente do lugar onde os Rolling Stones fizeram a sua primeira apresentação em julho de 1962 — o lendário Marquee Club, em Londres -, ela revela a vitória da persistência em um mundo no qual é muito fácil desistir.

Mais do que em qualquer outro universo, o show business é uma verdadeira e perigosíssima miragem para quem pensa que ser um rockstar é ter sempre muito dinheiro, mulherada a rodo e bajulação 24 horas por dia. Bem, isto existe, mas não só isto e não é tão fácil quanto parece.

Poucas coisas são tão negativamente surpreendentes quando os músicos que tanto almejaram o estrelato percebem que, ao se transformarem em um rockstars, vão passar a lidar diariamente com assessorias de imprensa, empresários e — pior — advogados. É, ter uma carreira significa ter uma empresa, igual a tantas outras, que pagam impostos exorbitantes, são roubadas o tempo todo e que, muitas vezes, ferem mortalmente o lado artístico dos envolvidos.

É por isto que o meio século de carreira dos Rolling Stones deve ser celebrado não apenas pela relevância artística que eles ainda possuem, mas principalmente pela obstinada perseverança que Jagger e Richards irradiam, mesmo que aos trancos e barrancos de uma conturbada convivência, para que a máquina que leva o nome do grupo continue a funcionar. E muito bem, diga-se de passagem.

Se hoje está claro que Jagger assumiu a função de dirigir os negócios do grupo e que Richards é o cérebro musical da banda, cabendo a Wood e Watts o papel de "coadjuvantes oficiais", também é evidente que a maioria de tudo aquilo que os caras fizeram na carreira foi absolutamente genial. Esqueça o papo de que o grupo não lança nada de bom desde o Tattoo You, de 1981. Besteira. Por pior que um disco dos Rolling Stones seja — como é o caso de Undercover, de 1983 -, ele é melhor que 94,8% de todos os discos lançados na galáxia.

Tal relevância musical é ainda mais assombrosa quando sabemos de todas as confusões em que o grupo se meteu. Sexo, drogas, mortes, prisões, fuga para outros países para escapar da voracidade dos impostos ingleses, traições... Você pode pensar nas piores situações e sentimentos: Jagger, Richards, Wood, Charlie e qualquer outro cara que tenha passado pela vida da banda já experimentaram tudo isto.

Longe de fazer qualquer barulheira de sangrar os ouvidos mais calejados, o embalo presente em cada canção que a banda gravou e que apresenta em cima do palco é implacável. Poucas bandas conseguiram não perder a sanidade musical mesmo quando tudo fugia ao controle, esfregando os versos perversos e riffs de guitarra mitológicos na cara do ouvinte. E este clima perdura por cinquenta anos!

A carreira da banda é sublime? Não, mas é uma declaração de amor lírica e intensa a um mundo hostil, cínico, mundano, profano, orgásmico e psicóticos. Quem conseguiu chegar vivo até aqui driblando tudo isto merece sim todas as honras, festas e cumprimentos.

Como os quatro senhores que você vê na foto acima e quem mais passou pelo grupo nos vídeos abaixo...

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Sobre Regis Tadeu

Regis Tadeu é crítico musical, jurado do Programa Raul Gil, colunista/produtor/apresentador do portal do Yahoo, produtor/apresentador dos programas Rock Brazuca e Agente 93 na Rádio USP FM e foi Diretor de Redação/Editor das revistas Cover Guitarra, Cover Baixo e Batera.

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