Não dá para descrever o show de Bruce Springsteen em São Paulo sem derramar algumas lágrimas…

Regis Tadeu
Na Mira do Regis

Confesso que passei quase o dia inteiro pensando na maneira como começaria este texto. Na verdade, tentei escolher as melhores e mais corretas palavras para tentar descrever o que foi o show de Bruce Springsteen ontem em São Paulo, no Espaço das Américas.

Ainda estou no meio de uma verdadeira tormenta de sensações que tal apresentação causou em mim e em todas as pessoas que presenciaram talvez o que tenha sido o melhor show de nossas vidas. Talvez no futuro alguém venha a escrever um livro inteiro a respeito deste evento. Mal posso esperar para ler o que será escrito. Já passei por muitas situações em espetáculos musicais, mas nem eu ou qualquer outra pessoa estávamos preparados para o que rolou...

Tenho certeza que cada um que esteve presente ontem ao show saiu do local se sentindo diferente. Ver e ouvir Bruce ao vivo com sua banda simplesmente espetacular, na qual todo mundo brilha - com destaques para a maravilhosa dupla de guitarristas formada pelos lendários Steven Van Zandt (o “Little Steven”) e Nils Lofgren, e o veterano e preciso baterista Max Weinberg (que toca com Bruce desde 1974!!!), além do saxofonista Jake Clemons, sobrinho do mitológico e falecido companheiro de Bruce, o também saxofonista Clarence Clemons, homenageado no show com sua imagem no telão e uma pungente “Tenth Avenue Freeze-Out” – é daquelas experiências que abrem horizontes sem fim e nos fazem lembrar o quanto a sua música importa de verdade. E muito!

Bruce Springsteen é um daquelas caras que jamais terão algo diferente em sua carreira musical do que uma “fase americana”. É justamente por abordar os aspectos do país em que mora com um olhar tão meticulosamente poético, repleto de observações que quase ninguém notou antes dele, que dá para cravar que ele é um dos poucos a ter um ápice da genialidade espalhado por TODA a sua obra. Sem exceções negativas. Nada.

Como posso tentar descrever a você um show de Bruce Springsteen que abre com... “Sociedade Alternativa”??? Sim, é isto mesmo o que você leu. A primeira canção que ele e sua E Street Band entoaram no palco foi o clássico de Raul Seixas, na íntegra, com todos os versos cantados por Bruce em um português quase perfeito e com uma alegria que deve ter feito o espírito de “Raulzito” chorar de emoção.

Como vou passar a você a sensação de estar em uma apresentação de quase 3h50min em que aconteceu de tudo: pedido de casamento de um casal em pleno palco, Bruce abraçando e beijando várias vezes um grupo de vovós na plateia, sendo carregado em “crowd surfing” pelo público, ‘abençoando’ a barriga de uma jovem grávida, virando copos de cerveja goela abaixo e em cima de sua própria cabeça no meio da plateia, levando uma garotinha para cantar no palco com ele, dançando com várias meninas vestidas com a camisa da seleção brasileira e mais um monte de outras barbaridades sensacionais?

Como posso explicar a você um show em que grande parte do repertório é escolhida pela própria plateia, que segura cartazes com os títulos das canções? A partir do momento em que Bruce pega um cartaz e mostra para toda a banda e o restante do público, a música é tocado ali na hora. Como descrever isto em simples palavras?

E as canções... Meu Deus do céu, uma melhor que a outra: “Bobby Jean”, “Dancing in the Dark”, “Thunder Road”, “Hungry Heart”, “Born in the USA”, “No Surrender”, “The River”, “Darkness on the Edge of Town”, “The Rising”, “Working on a Highway” e, claro, “Born to Run”. Foi simplesmente impossível passar incólume pelo show sem derramar algumas lágrimas, disfarçadas ou não. Do meio do show em diante Bruce já estava completamente ensopado de suor, água e cerveja, transbordando uma alegria que jamais vi em algum artista em QUALQUER gênero. Também nunca vi um cara mais carismático do que ele. Não existe. Fim de papo.

Se você não acreditou em mim quando recomendei este show – assista aqui – e ficou em casa fazendo qualquer outra coisa, só tenho a lamentar e dizer que não vai adiantar você ler o que escrevi acima. Só quem presenciou vai entender...