Nunca mais o sono de Zezé Polessa será o mesmo

Na Mira do Regis

Umas das coisas mais interessantes que reparei a partir do momento em que comecei a trabalhar em televisão foi a maneira como algumas pessoas pensam que ser “artista” significa estar alguns degraus acima do nível dos pobres mortais que sentam à frente de um aparelho de TV. E quando escrevo “interessante” é porque ainda hoje tal postura desperta em mim um misto de incredulidade com... pena. É, pena ou piedade, pode escolher.

Muito antes de adentrar ao universo da televisão por conta de uma divertidíssima entrevista que dei ao Jô Soares há alguns anos – tão extensa que teve que ser dividida em três partes, que você pode assistir clicando em parte 1, parte 2 e parte 3 -, eu já tinha o pensamento que vou externar daqui a pouco. Só que depois que passei a trabalhar neste meio tal opinião se fortaleceu ainda mais.

Caso você esteja curioso(a) a respeito do que penso, escrevo agora: é inadmissível tratar mal alguém que está trabalhando justamente para que o seu trabalho seja reconhecido. Aliás, é vergonhoso tratar mal quem quer que seja.

Algumas pessoas estranharam – e ainda estranham – o fato de eu cumprimentar absolutamente todo mundo que encontro pela frente quando entro em um ambiente fechado. Todo mundo mesmo, sem exceção. Fui educado desta forma por minha saudosa mãezinha, a gloriosa Dona Irene – que também incutiu em meu vocabulário constante as palavras “por favor” e ‘obrigado” – e vou carregar tal lição até o fim de minha existência.

Por isto, já notei que algumas pessoas que trabalham na TV ainda estranham ao me ver cumprimentando e brincando com faxineiras, “tias do café”, operadores de câmera, “caboman”, seguranças e quem mais é considerado “subalterno”. Para muitos, ver alguém que participa de um programa - e cuja imagem vai ao ar - ter um contato mais próximo e brincalhão com funcionários que são ignorados no dia a dia é uma exceção dentro do cotidiano de uma emissora. Infelizmente. Porque isto deveria ser uma regra...

Eu mesmo já tomei algumas esnobadas de, coincidentemente, ‘apresentadores de telejornais’ nos corredores das emissoras por onde passei na forma de um “boa tarde/boa noite” não respondido. Até hoje não entendi o motivo. Será que eles ficaram bravos por conta de minhas opiniões musicais a respeito de gente do naipe do Latino, Banda Calypso, Chiclete com Banana e outros ‘artistas’? Vai ver que foi por isto...

Enfim, escrevi tudo isto porque fiquei absolutamente pasmo ao ler a notícia aqui no Yahoo que um motorista idoso que presta serviço para a TV Globo foi destratado publicamente e aos berros pela atriz Zezé Polessa, que vive a personagem Berna na novela Salve Jorge, porque errou o caminho ao levá-la até os estúdios da emissora, o tal de Projac, indo parar em um bairro vizinho – você pode ler a notícia aqui. O senhor passou mal, começou a sentir dores fortíssimas no peito e falta de ar, repetindo incessantemente que não poderia perder o emprego. Foi levado a um hospital, mas infelizmente veio a falecer.

Primeiro, a assessoria da atriz negou que tivesse havido qualquer tipo de discussão por parte dela. Depois, a própria TV Globo emitiu uma nota dizendo que o motorista prestava serviços para a emissora por meio de uma empresa terceirizada. Na sequência, de uma maneira muito ‘sonsa’, a atriz emitiu um comunicado elogiando o motorista como uma pessoa “educada e gentil” e que “ficou muito triste quando soube de seu falecimento”, o que só veio a comprovar que houve sim o entrevero. Aliás, fiquei sabendo também que nenhum motorista do Projac vai buscar Zezé em casa com um sorriso nos lábios por causa do péssimo temperamento da atriz, que agora está mais preocupada em saber quem vazou a informação da “discussão”, o que deixou a produção da novela ainda mais revoltada.

Não conheço pessoalmente a atriz Zezé Polessa. Sei que seus amigos, colegas da classe artística e até mesmo a TV Globo vão tentar abafar o caso e defendê-la, dizendo que ela é um “amor de pessoa”, coisa e tal. Não vou também condená-la sumariamente pela atitude supostamente arrogante que ela teve contra o coitado do motorista, como muitos estão fazendo por aí. O pior castigo ela acaba de receber, já está em sua cabeça e, provavelmente, vai ter que conviver com ele pelo resto da vida: o sentimento de culpa. Nunca mais o sono de Zezé Polessa será o mesmo...

Que tudo isto sirva de lição para quem, independente da profissão ou condição financeira/social/cultural, insiste em tratar as pessoas mais humildes com desprezo e desrespeito. Um dia, isto pode se transformar em um inferno espiritual.

Estão todos avisados.