O 40º aniversário do disco que transformou Raul Seixas em um mito.

Na Mira do Regis

Ninguém percebeu, ninguém sacou, ninguém prestou atenção, ninguém pesquisou. Ninguém escreveu uma linha a respeito do fato de que um dos discos mais espetaculares da história da música brasileira fez seu 40º aniversário de lançamento esta semana. Um álbum que forjou, para o bem e para o mal, sucessivas gerações de malucos, “beleza” ou não. É, há quadro décadas o Brasil foi virado de cabeça para baixo com a aparição de Krig-ha, Bandolo!, o primeiro disco solo de Raul Seixas.

Bom, “ninguém” uma ova. Vou tomar emprestado um pouco do seu tempo para dar meus pitacos a respeito de uma obra que transcendeu de maneira absurda os sulcos do LP – é, sou um cara muito velho – para se tornar um manifesto de vida por milhões de pessoas. E não estou exagerando nesta afirmação. Basta ter vivido o bastante para constatar o quanto este disco influenciou os corações e mentes de sucessivas gerações desde o primeiro dia em que chegou às lojas e às rádios. Pode apostar que se você mostrar este disco para uma garotada com um mínimo poder de discernimento e compreensão vai alterar o futuro desta turma para sempre. E a julgar o estado de estupidez da molecada hoje dia, tenha a certeza que esta mudança será para melhor...

Tente se transportar para o ano de 1973. Como não ficar intrigado com um disco que começa com uma gravação de seu criador, aos nove anos de idade, balbuciando alucinadamente os versos de “Good Rockin' Tonight", a espetacular canção composta por Roy Brown e eternizada por Elvis Presley? Só que isto não era nada comparado com o que vinha a seguir...

Berimbau, atabaques, mosca zumbindo, coral de candomblé, rock bruto e safado, vocal alucinado e uma letra sensacional, quase mântrica, foram suficientes para esfarelar o cérebro de todo mundo que tomava contato inicial com “Mosca na Sopa". Na época, eu era apenas um moleque de 13 anos com espinhas na cara e já tomado pelos espíritos do Black Sabbath, Slade e Deep Purple de modo até então meio radical. Mesmo assim, não pude deixar de fazer a tradicional “cara de pastor alemão em dúvida” quando comecei a ouvir esta música na casa de um amigo. Só que no exato momento em que terminei de ouvir a música seguinte, a inacreditável "Metamorfose Ambulante", percebi que meu “radicalismo” tenha escorrido pela barra da minha calça. Não dava para ignorar que aquilo era uma ode à liberdade de pensamento e eu não havia nada de errado em reconsiderar uma opinião se os argumentos fossem válidos e consistentes.

Quando ouvi “Ouro de Tolo” então... Bum! Foi quando percebi que uma letra, um corrosivo e sutil esporro na sociedade consumista daqueles tempos, poderia ter uma importância maior do que a parte instrumental dentro de uma canção. Até hoje sinto um frio na espinha toda vez que ouço e visualizo os versos “Eu que não me sento/no trono de um apartamento/com a boca escancarada cheia de dentes/esperando a morte chegar”. Finalmente, o Roberto Carlos de “Sentado à Beira do Caminho” e o Bob Dylan de "Subterranean Homesick Blues” haviam se encontrado...

As tonalidades subindo progressivamente no acelerado country “Dentadura Postiça”, a escancarada influência de Bob Dylan em “As Minas do Rei Salomão” e “Cachorro Urubu”, e dos Beatles na melancolia sublime de “A Hora do Trem Passar”, tudo soava tão fresco aos meus ouvidos que demorei anos para juntar as peças e as conexões destas canções.

Comecei a pular pela sala como um cabrito montês depois dos primeiros acordes das sensacionais “Al Capone" e “Rockixe”! E que letras absurdas eram aquelas? Como era possível cantar aquelas coisas tão bem sacadas dentro de um rock and roll totalmente descabelado?

A parceria com o então letrista Paulo Coelho foi um belo ‘alinhamento de planetas’, mas não foi decisiva para Raul, já que sua capacidade como letrista sempre foi absurda, principalmente para moleques como eu, não davam muita bola às letras das canções. Tudo mudou depois de Krig-Ha, Bandolo!. Ninguém conseguiu transformar em poesia a desilusão da classe média e ainda fazer com que isto se instalasse nos primeiros lugares das paradas de sucessos, consumível, vendável e entendida por todo mundo. Músicas sem seguir tendências, trabalhadas individualmente e com possibilidades de seguir qualquer caminho que Raul determinasse.

Anos mais tarde, vi o quanto este disco se tornou um modo de viver para todo e qualquer hippie que conheci ao longo da minha vida. Com o passar do tempo, grande parte dos próprios fãs de Raul se tornaram tristes caricaturas de seu ídolo, talvez por que as músicas do “Maluco Beleza” atingiram as pessoas de maneira indistinta. Não importa se a pessoa fosse um intelectual ou retardado, um fã de Iron Maiden ou dos Menudos, um sujeito do bem ou uma alma do mal: Raul Seixas havia se transformado em um misto de filósofo e guru. Daí para a mitificação foi um pulo. Mas ele nunca deixou de ser uma “mosca na sopa”...