O albino Johnny Winter mostrou que a alma da música não tem cor

Na Mira do Regis

Tinha tudo para dar errado.  Feio pra cacete, vesgo, albino, tímido. Um moleque com estas características tem pouquíssimas chances de vingar no show business, um universo em que a aparência frequentemente é mais valorizada que a competência em fazer ótimas canções.

Só que John Dawson Winter III não era um moleque qualquer, cheio de espinhas na cara e impossibilitado de transar com a garota que amava. Ele sabia tocar guitarra. E muito! Mas muito mesmo!!! E ainda por cima compunha bem. E mais ainda: era um furioso devoto do blues.

Não vou conseguir descrever em palavras o quanto os espetaculares discos que Johnny Winter lançou na carreira literalmente incendiaram a minha adolescência e juventude. Principalmente os álbuns que lançou na década de 70 – semana que vem prometo elaborar um guia para você, que porventura não saiba quem ele foi, começar a gostar do trabalho dele. Foi uma paulada atrás da outra, fosse gravada em estúdio ou ao vivo.

Naqueles tempos, era difícil acreditar que um sujeito com a pele tão branca, quase transparente, pudesse recriar a beleza, a potência e o carisma dos grandes mestres negros do blues. E tudo tocado com uma fúria tão avassaladora que, perto dele, Eric Clapton parecia um esquilo assustado tocando um violão de plástico.

E o amor que Winter sempre devotou ao blues fez muito mais que recriar e valorizar a imensa magia da música negra americana. O guitarrista foi o responsável pelo ressurgimento do lendário Muddy Waters, relegado a um criminosos ostracismo por parte do público americano nos anos 70 até que o albino maluco resolveu produzir os discos do veterano bluesman. O resultado foram álbuns espetaculares – Hard Again (1977), I’m Ready (1978), Muddy “Mississipi Waters (1979) e King Bee (1980) – que reergueram a carreira de Waters com prêmios e uma nova atenção por parte da molecada.

Winter poderia ser tão mitológico quanto foi Jimi Hendrix – este, inclusive, ficou com o queixo em cima dos próprios sapatos na primeira que viu Winter tocar ao vivo -, mas sendo Viciadaço em heroína, muitas portas se fecharam para ele.

O velho albino morreu ontem, aos 70 anos, em um quarto de hotel de Zurique, na Suíça. Ele se preparava física e mentalmente para fazer mais uma turnê, a derradeira oportunidade para que nós, pobres e miseráveis terráqueos, pudéssemos ter contato com um sujeito cuja aura emanou uma espécie de divindade para qualquer sujeito que seja apaixonado pelo blues, pelo rock ou por ambos. E ainda deixou um disco prontinho, Step Back, que será lançado em setembro, cheio de convidados especiais - Eric Clapton, Ben Harper, Joe Bonamassa e Joe Perry – que aceitaram o convite para participar do álbum sem piscar os olhos.

Detalhes de sua biografia você encontra por aí, na internet, nos “wikipedias da vida”. O que não dá para encontrar são os relatos de quem ouviu os discos de Winter, viu as suas apresentações em vídeos ou ao vivo nos shows e pensou no quanto a alma de alguém não tem cor...