Pitty deixa para trás a babação adolescente de seus fãs e ingressa no mundo adulto

Na Mira do Regis

Ser idolatrada por uma nova geração de adolescentes não deve ser fácil para nenhuma cantora, principalmente para quem já é uma mulher madura. Tem gente que não lida bem com isto – vide as patéticas canções e a imagem ridiculamente forçada da Avril Lavigne, por exemplo -, tem gente que não consegue se afastar deste universo nem quando lança discos ainda mais maduros em suas letras – como é o caso de Alanis Morissette – e tem gente ainda que tenta radicalizar na mudança e só consegue causar pena, como é o caso da Miley Cyrus.

Pitty foi uma das primeiras figuras do rock nacional a se beneficiar da febre do mp3 no Brasil. Seu disco de estreia, Admirável Chip Novo, se valeu disto para se popularizar perante uma galera que andava órfã de bandas como “portadoras de mensagens”. Isto sem contar a grande mão dada pela MTV, que a transformou em uma espécie de ícone do universo “menina raivosinha e sensível que não encontra seu lugar no mundo dos adultos”, juntamente com a própria Alanis e outras improváveis companheiras. Cabeça de adolescente é bem bagunçada mesmo, né?

Entre o lançamento de seu disco anterior – Chiaroscuro, de 2009 – e este Setevidas se passaram quatro anos. Foi o tempo que ela levou para tentar entender a sua carreira com a banda em um cenário totalmente diferente. No meio do caminho, deu vazão a outros anseios musicais com o duo Agridoce, um bom projeto acústico ao lado de Martin, um de seus parceiros na banda. Nesta transição, era de se esperar que Pitty tivesse se preparado para mudar e, principalmente, mostrar os resultados de seu amadurecimento. E então chegou 2014...

Em busca de uma carreira ainda mais sólida dentro de uma cena musical brasileira anda esquisita, Pitty agora exala tristeza, dor e esperança. Tudo ao mesmo tempo. Tudo pairando no mesmo ar de cada uma de suas novas canções.

Logo na abertura do disco, com a pesada “Pouco”, Pitty dá claros sinais de que andou repensando bastante a sua carreira e a própria musicalidade de sua alma aparentemente atormentada sabe-se lá por quê. Quero dizer... Deduzo que tenha sido por conta da morte de um grande amigo – o guitarrista Peu, falecido no ano passado – e da própria gata, cuja foto estampa a capa do disco. Imagino também que a demissão do baixista Joe, que acabou resultando em uma batalha judicial meio escrota, também tenha contribuído muito para o que se ouve nesta canção e no restante do disco.

Outra mudança evidente está no fato de que todas as canções do álbum foram gravadas ao vivo em estúdio, ou seja, todo mundo tocando junto e ao mesmo tempo. Para dar um “tapa de cristalinidade” e afastar qualquer traço de tosquice sonora, o produtor Rafael Ramos botou o celebrado Tim Palmer – que já produziu discos do Pearl Jam, Ozzy Osbourne, Robert Plant e mais um monte de gente bacana – para mixar o disco, em uma decisão mais que acertada. Dá para sacar isto com mais precisão no peso explícito de “A Massa” e na faixa título, a mais confessional de todas em termos de letra.

“Deixa Ela Entrar” tem aquela concisão que toda boa canção de pop/rock tem que ter. Dá para imaginar que usaram como referência o som que os Ramones fizeram no álbum Mondo Bizarro.

A angustiante balada “Olho Calmo” é pesada o suficiente para trazer à tona o quanto inexiste de coincidência entre o que Pitty viveu nos últimos anos e o que está retratado neste álbum, como se revelasse nas entrelinhas o fato de terminar uma dolorosa jornada. O mesmo acontece com “Boca Aberta”, que chama atenção pela complexidade rítmica e pela timbragem esperta das guitarras.

Em compensação, algumas canções têm boas ideias em termos de riffs, mas pecam no arranjo e até mesmo na linha de vocal escolhida por Pitty, como “Um Leão” e “Lado de Lá”, ambas com a mesma abordagem rítmica, uma seguida da outra, apesar das atmosferas um pouco diferentes e do piano e “coral” nesta última – algo que se repete na quase épica “Serpente”.

Já novo baixista Guilherme Almeida substitui o demitido Joe com eficiência simples e precisa – vide a linha de baixo ‘engordurada’ e densa tocada na introdução e ao longo da interessante e ‘nirvanesca’ “Pequena Morte”.

Quando terminei de ouvir o disco pela segunda vez, saquei que Pitty e sua banda estão “trocando de pele”, como fazem as serpentes. Melhor assim...