Que Jeff Hanneman agora possa sorrir em paz

Na Mira do Regis

Jeff Hanneman não foi um cara fácil de lidar - o próprio Kerry King me confidenciou isto certa vez durante uma entrevista – e seu temperamento taciturno jamais propiciou a ele uma gargalhada ou sequer um mero sorriso em público. Quando entrevistei os integrantes do Slayer em 1998 para a revista Cover Guitarra, na qual eu era o editor, todos foram atenciosos e bem humorados durante o papo. Menos Hanneman. Ao contrário de seus companheiros, ele levava para os bastidores a mesma energia mastodôntica e raivosa que exibia em cima dos palcos. Em termos de humor, Kerry King parecia o Costinha perto dele.

Só que nada disto importava quando a gente assistia a um show do Slayer ou mesmo ouvia cada um dos espetaculares discos que a banda gravou. Sua postura em cena era o retrato animalesco do som dos caras. Seus solos eram um caos absoluto e os riffs... Meu Jesus, quando ele se juntava a King, ao baixo tonitruante de Tom Araya e a bateria demolidora de Dave Lombardo, a gente tinha a impressão que o Apocalipse iria rolar dentro de instantes.

Hanneman morreu ontem, vitimado pela insuficiência hepática que adquiriu ao longo das grandes bebedeiras em que se meteu ao longo da vida e que ficaram ainda mais insanas desde janeiro de 2011, quando ele contraiu uma bactéria que causou uma rara infecção subcutânea, chamada fasciite necrosante, ao ser picado por uma aranha. Ele só não morreu porque os médicos fizeram um diagnóstico preciso a tempo. As sequelas foram horrendas, como você pode verificar na foto abaixo:

Desde então, ele nunca mais voltou a participar efetivamente do grupo. Até chegou a tocar com os caras em um show em 2011, mas nada que sugerisse um retorno efetivo. Pelo contrário. O terrível problema no braço e, principalmente, o alcoolismo cada vez mais intenso o afastaram de qualquer coisa relacionada ao Slayer. Cláusulas contratuais impediram que Kerry King – o verdadeiro dono do grupo – anunciasse oficialmente o seu desligamento, ainda mais por ele ser um dos membros fundadores da banda. Vai saber o quanto esta situação não ajudou a aumentar ainda mais a dependência alcoólica de Hanneman?

Seu grande interesse pela história do Nacional Socialismo que levou a Alemanha a mergulhar em um regime nazista e, posteriormente, na 2º Guerra Mundial sempre lhe trouxe dores de cabeça. Não foram raras as ocasiões em que ele e o restante do grupo tiveram que desmentir qualquer apoio ou mesmo simpatia por movimentos de extrema direita. Teve muita gente que levou a letra de uma de suas mais famosas canções, “Angel of Death”, excessivamente a sério.

Agora ele se foi e, com ele, uma parte importante de um capítulo essencial da história do heavy metal e do rock em geral se foi. Tomara que ele esteja em um local onde possa sorrir sem ser ‘patrulhado’ por fãs radicais. E longe de aranhas...