Resgate de cultuado LP do The Galaxies dá saudade da ingenuidade do rock brasileiro dos anos 60.

r-tadeu
Na Mira do Regis

Vou começar este texto logo com um agradecimento. Quero enviar meu particular “muito obrigado” para todos os “arqueólogos musicais” que bravamente tentam preservar a memória da música nacional em meio a uma das mais terríveis ondas de retardamento mental coletivo que o Brasil já vivenciou. Gente como Charles Gavin, Marcelo Fróes, DJ Zé Pedro e tantos outros profissionais merecem todas as gentilezas possíveis porque estão nadando contra um corrente violentíssima. Todas as leituras, comentários e críticas a respeito do mercado de CDs e LPs no Brasil dão conta quer este universo está ficando cada vez mais diminuto. E esta turma continua a trabalhar insanamente. Meus aplausos!

A este “pelotão de notáveis” juntam-se agora outros dois nomes: 180 Selo Fonográfico e Record Collector Brasi. São os selos responsáveis pelo relançamento – caprichadíssimo, por sinal – de um dos discos mais raros da história do rock brasileiro e talvez mundial: o único LP do grupo The Galaxies, lançado em 1968 e que rapidamente se tornou um dos poucos álbuns que podiam ser considerados como um dos “Santo Graal” para os milhares de colecionadores de psicodelia dos anos 60.

Para quem nunca ouviu falar deste grupo, o The Galaxies foi uma das milhares de bandas que apareceram na década de 60 e que formaram uma intensa cena de “bandas de garagens” daqueles tempos. Só que tinha uma peculiaridade: era um quarteto multinacional! A “cozinha” era formada por dois brasileiros – o baixista Alcindo Maciel e o baterista Zeca de Aquino -, enquanto a linha de frente era comandada pelo guitarrista/vocalista inglês David Charles Odams e pela vocalista americana Jocelyn Anne Odams.

Enquanto a maioria das bandas que comungavam com a Jovem Guarda fazia versões em português de grandes clássicos do rock internacional ou tentava cantar com um inglês meio ‘macarrônico’, o The Galaxies fazia suas versões cantando em inglês perfeito e apresentando aos ‘brasucas’ o material de grupos que demorariam anos para ser conhecidos por aqui, como o lendário Love, de Arthur Lee, de quem os Galaxies gravaram “Que Vida!” e “Orange Skies” . E ainda botaram no disco – que contou com a participação não creditada do guitarrista Carlos Eduardo “Tuca” Aun, dos Baobás - suas versões para “I’m Not Talking”, dos Yardbirds, “Can’t Judge a Book by Looking at the Cover”, do Bo Diddley, e “Mellow Yellow”, do Donovan, entre outras.

Reza a lenda que a banda não tinha muita grana e acabou fazendo as gravações em um estúdio precário - o que absolutamente incrível, dada a qualidade da gravação - e que a turma conseguiu prensar apenas 400 cópias do disco. Como nada aconteceu em termos de sucesso, David e Jocelyn resolveram se casar e se mandaram para os Estados Unidos naquele mesmo ano, encerrando as atividades do grupo.

A história foi revivida 47 anos depois, quando o pessoal dos dois selos entrou em contato com os integrantes e obteve deles a autorização para tratar as fitas originais e dar uma realçada/melhorada no som, além de fazer uma nova prensagem em LP diretamente das masters em um ótimo estúdio europeu especializado nesta área. Além disto, foram incluídas duas faixas retiradas diretamente de um acetato que o baterista Zeca guardou desde aquele tempo: uma versão de “Happy Together”, do The Turtles e um take alternativo da canção “Hey!!!”, uma das poucas canções autorais do grupo.

A nova capa, então, é uma “lindeza”, feita em um papel especial e texturizado, reproduzindo fielmente a capa original, com encarte em português e inglês, com fotos raras e a história da banda. Ah, e ainda vem ainda um “obi” – aquela filipeta em forma de coluna que acompanha todos os discos fabricados no Japão e que transforma qualquer colecionador de discos em um “tarado audiófilo” – com trazendo informações adicionais. Um puta luxo! Ouçam só que maravilha:

Que estes incansáveis pesquisadores não se deixem abater por um mercado musical cada vez mais imediatista e por um público cada vez mais ignorante. Felizmente, ainda existem pessoas que se preocupam em educar a si mesmos e a seus filhos com sons que relembram os bons tempos da música feita aqui no Brasil, não importa a língua em que eram cantadas.