Todo crítico é um músico frustrado? Eu não.

Na Mira do Regis

É certeza absoluta: toda vez que comento a respeito de um disco e/ou show de maneira negativa, recebo uma enxurrada de reclamações dos fãs, a grande maioria com argumentações típicas de quem tem apenas uns oito ou nove neurônios, sendo que dois deles estão bem enguiçados. Infelizmente, são poucas as pessoas que conseguem rebater o que escrevo com uma mínima capacidade de argumentação inteligente e bem embasada.

Tudo isto sem contar com as inúmeras ocasiões em que recebo ofensas de fãs de bandas e artistas que elogio em meus textos, em uma evidente prova que o energúmeno em questão sequer se deu ao trabalho de ler o que escrevi. Conversando com colegas de profissão, todos confirmam o que acabei de escrever. Tal fato provoca em mim sonoras gargalhadas e, ao mesmo tempo, um pouco de tristeza, já que a capacidade de compreender um texto vem caindo assustadoramente de algumas gerações para cá.

Um dos “argumentos” que mais leio nas reclamações destes fãs descerebrados é “todo crítico é um músico frustrado e você é apenas mais um deles”. Este é um daqueles do qual dou mais risadas, pois quem me acompanha desde os tempos em que era editor de revistas musicais sabe que sou baterista e ainda "dou minhas cacetadas” (obrigado, Renato "Didi Mocó" Aragão!) em guitarra, baixo e um pouquinho nos teclados.

É lógico que minhas ações musicais não produzem grandes sucessos de público porque jamais tive a intenção disto. Já toquei em várias bandas desde que sentei atrás de uma bateria pela primeira vez - em 1979, quando passei a ser integrante no grupo Subúrbio, ao lado de Edgard Scandurra e Nasi, banda que foi o embrião do que mais tarde se tornou o Ira! – e em nenhum momento tive a ilusão de que eu seria um “astro do rock” ou “artista de sucesso”. Meu negócio sempre foi me divertir, ganhar uma graninha e chamar a atenção das garotas, é claro! Existem no You Tube alguns vídeos que registraram algumas de minhas atuações ao longo dos anos, mas isto não vem ao caso no momento...

Só que recentemente aconteceu comigo algo que me deixou muito, mas muito orgulhoso. Foi um daqueles momentos em que a gente carrega até o final da vida, tanto pela honra com a qual fui agraciado, como também pelo prazer da experiência em si.

Algumas semanas atrás, estava eu assistindo a um show da Patrulha do Espaço no Manifesto Bar em São Paulo, um dos melhores e mais importantes grupos da história do rock nacional em todos os tempos, liderado por aquele que é considerado, POR UNANIMIDADE, uma lenda entre os bateristas brasileiros: Rolando Castello Júnior. Ou simplesmente o “Júnior da Patrulha”, um sujeito dotado de uma técnica assombrosa e de uma intensidade ao tocar tão absurda que, na ocasião em que o grupo abriu os shows do Van Halen aqui no Brasil em 1983, fez os irmãos Alex e Eddie Van Halen saírem de seus camarins para assistir a apresentação da Patrulha na lateral do palco e aplaudirem todas as canções mostradas.

Pois bem, foi este “monstro sagrado da bateria no rock nacional em todos os tempos” que me concedeu uma honra inimaginável para quem acompanha sua carreira desde os tempos em que tocou no mitológico “disco da banana” do Made in Brazil em 1974: subir ao palco, sentar em sua bateria e tocar uma música com a banda! Assim, de bate pronto, sem ensaio prévio, sem combinações. Nada programado. Tudo baseado no instinto e no prazer de estar ali, naquele dia, naquele minuto, naquele local.

Graças a Deus, recebi do próprio Júnior a incumbência de tocar uma de minhas músicas favoritas dentro do repertório da Patrulha do Espaço: “Festa de Rock”. O resultado desta honraria da qual fui agraciado pode ser conferido no vídeo abaixo.

“Todo crítico é um músico frustrado”? Não posso responder por meus colegas de profissão, mas... Eu? Jamais!