Na Mira do Regis

Uma guerra que não tem fim

Quem gosta de compartilhar música pela internet se sentiu meio órfão quando o Megaupload foi fechado em janeiro passado pelo governo americano com o mesmo blá blá blá — violação dos direitos autorais e promoção da pirataria em escala estratosférica. Se este foi o seu caso, não se sinta só: outros 150 milhões de usuários registrados também se sentiram assim.

Só que agora são cada vez mais fortes os boatos acerca da volta do referido "compartilhador", principalmente depois que seu fundador, um sujeito que atende pela alcunha de "Kim Dotcom" andou comemorando em seu perfil no Twitter o fim do SOPA, do PIPA e do ACTA, siglas referentes aos projetos de lei que visavam acabar com a pirataria na internet em escala mundial e, em contrapartida, aumentar o controle de dados dos usuários. Tanto ele quanto alguns executivos da empresa ainda respondem ao processo em liberdade, depois de terem sido presos na Nova Zelândia.

E estes boatos começaram justamente porque o Parlamento europeu barrou o tal ACTA, a sigla em inglês para o Acordo Comercial Anticontrafação, por enorme maioria há alguns dias. Para o governo americano, esta foi uma derrota inesperada e muito, mas muito dolorida em relação ao seu combate ao compartilhamento de arquivos, embora o processo de extradição do tal "Dotcom" para os Estados Unidos continue de pé.

Recentemente, o dono do Megaupload fez sérias acusações a ninguém menos que o vice-presidente dos EUA, Joe Biden, dizendo que ele é a pessoa que está por trás de todo o processo, já que representantes de inúmeros setores da indústria de entretenimento dos Estados Unidos ameaçaram retirar qualquer tipo de apoio financeiro à reeleição de Barack Obama caso a situação não se resolva o mais rápido possível. Hum, faz sentido, não?

Alguém aí se lembra da condenação do Napster e do fechamento do Audiogalaxy, só pra citar dois exemplos antigos e famosos? Você sabe o que isso gerou, não? O resultado daquelas ações provocou aquilo que nem mesmo o mais pessimista executivo da música e do cinema poderia esperar: o surgimento de centenas de outros programas de compartilhamento musical similares aos dois "condenados", que, por sua vez, originaram o surgimento de milhares de outros mecanismos de troca de arquivos, que extrapolaram até mesmo o âmbito musical, invadindo a seara de filmes, DVDs e o que mais você pensar em termos de entretenimento.

Lembra-se do também extinto Kazaa? Pois é, os caboclos que bolaram o programa foram igualmente processados e obrigados a fechar o serviço, mas resolveram usar o genial protocolo de transmissão de dados que tinham inventado para transmitir pacotes de voz, em vez de arquivos de áudio. Daí surgiu o Skype, uma das empresas de web mais sólidas do mundo, que apresenta lucros estratosféricos e saiu na frente em rumo a um futuro com banda larga mais acessível para celulares.

O que quero dizer é que em toda essa confusão, uma coisa é certa: a indústria do entretenimento continua a não saber o que fazer com a nova realidade. E nem mesmo a maioria dos músicos, que ainda não entendeu que a grana de suas respectivas carreiras agora tem que vir dos shows. Não canso de repetir: antigamente, um artista fazia uma turnê para promover um novo disco; hoje, o cara lança um CD para promover uma nova turnê. Simples assim...

Está na cara que ninguém - e volto a repetir: NINGUÉM - vai deter o download. Isso é um fato consumado. Ponto. Tenha em mente que estas "condenações" não apenas mantêm a indústria em rota de colisão suicida contra uma molecada espertíssima - e pode apostar que são milhões de jovens ao redor do planeta - a continuar pirateando e, por conseguinte, sabotando o "sistema".

O mais incrível é que ninguém, com exceção do iTunes, consegue elaborar uma maneira mais inteligente e diplomática de se relacionar com seus consumidores. Vitórias isoladas e momentâneas como esta contra o Megaupload aumentam ainda mais a popularidade negativa dos burocratas das multinacionais do entretenimento que, por sua vez, demonstram novamente que não têm a mínima noção de como a internet funciona. Não é à toa que eles estão debatendo sobre isso há mais de uma década e ainda não se cansaram de tomar decisões desastrosas para a indústria que representam.

Proporcionalmente, a internet hoje é um campo dominado por adolescentes. O que as gravadoras e estúdios insistem em não reconhecer é um questão simples: se a imensa maioria que faz downloads nunca pagou por isso, por que iria pagar agora? E toda a batalha da indústria pode ser resumida em "ganhar mais, mais, mais...", mandando para o ralo as questões de direito civil, fazendo papel de "polícia" e ameaçando de prisão seus hipotéticos "clientes", agindo como "cobradores da Máfia". Sabe aquele papo "Ah, é assim? Não vai pagar mais? Então vou fazer você amanhecer com a boca cheia de formiga"? Pois é...

Outra coisa: você sabia que inúmeros sites de upload - Mediafire e Rapidshare - repassam uma determinada quantia às gravadoras para que estas os deixem em paz, desde que não atrapalhem lançamentos de álbuns e que continuem trabalhando para deletar links de blogspots? Pois é...

No Brasil, a chamada "classe C" já tem o computador como item básico, não sem antes instalar uma banda larga bem barata. Pode apostar que esse é mais um sinal de que não se pode deter a roda da história. Todo mundo já sacou isso. Menos a indústria do entretenimento.

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Sobre Regis Tadeu

Regis Tadeu é crítico musical, jurado do Programa Raul Gil, colunista/produtor/apresentador do portal do Yahoo, produtor/apresentador dos programas Rock Brazuca e Agente 93 na Rádio USP FM e foi Diretor de Redação/Editor das revistas Cover Guitarra, Cover Baixo e Batera.

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