Na Mira do Regis

Titãs retomam o seu poder de fogo em “Nheengatu”

Desde que os Titãs lançaram seu mais recente álbum, Nheengatu, li e ouvi muitas besteiras a respeito disto. Uma das mais recorrentes foi – e ainda é – “como estes tiozinhos não tem vergonha de fazer música revoltada, como se fossem adolescentes”. Isto dá bem a real dimensão de como as pessoas hoje raciocinam de uma maneira tão rasa que beira o analfabetismo funcional.

Desde quando existe algum tipo de “patrulhamento etário” que determina em que etapa da vida alguém deve abordar ou não alguns assuntos em suas canções? Ou será que isto está apenas na cabeça de quem sente medo de tocar em certos assuntos para não “magoar” um determinado nicho? Isto significa que jovens não podem compor canções a respeito da chamada “terceira idade”? Ou velhinhos não podem criar músicas a respeito de possíveis revoltas estudantis? Desde quando o mundo passou a ser dividido em baias de idade?

Ouvindo cada canção de Nheengatu, percebo claramente a coerência que a banda tem ao voltar suas atenções e artilharias contra assuntos que já abordou no passado e outros que incomodam nos dias de hoje. Não importa há quanto tempo os caras lançaram ótimos discos como Cabeça Dinossauro (1986) e Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas (1987). Assim como outros grupos, eles têm o direito de voltar a ter um discurso mais ácido em suas letras. Seja por antecedentes no passado ou não.

É por isto que, passado o susto inicial, dá para cravar que Nheengatu é um belo disco, principalmente vindo de um grupo havia chegado ao fundo do poço em termos artísticos com seus dois álbuns anteriores: o fraco Como Estão Vocês (2003) e o pavoroso Sacos Plásticos (2009). Primeiro, porque os quatro remanescentes da formação - Branco Mello, Sérgio Britto, Paulo Miklos e Tony Bellotto – resolveram recuperar a sonoridade que a banda mostrou em um de seus discos mais subestimados, Titanomaquia (1993). Dá até a impressão que um álbum foi gravado ao mesmo tempo em que o outro. Depois, porque as novas canções recuperaram uma veia poética mais agressiva e menos complacente, com resultados bastante felizes na união com a massa sonora dos instrumentos. E o novo baterista Mario Fabre mostrou-se extremamente competente em manter a pegada pesada que cada música pede.

Não há baladas, muito menos espaço para ‘sensibilidades’. O discurso é reto e agressivo, seja na hora de abordar a tara sexual por crianças vista pelo ponto de vista de um anormal em “Pedofilia”, a exploração de quem deve manter a ordem em “Fardado”, a crítica ao preconceito em “Quem São os Animais”, o ‘basta’ em “Mensageiro da Desgraça” e a indignação em todas as outras canções, incluindo a boa versão de “Canalha”, de Walter Franco.

Por tudo o que se ouve em Nheengatu, os Titãs finalmente conseguiram o que queriam há tantos anos: a possibilidade de atrair novos fãs sem perder os admiradores antigos.

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Regis Tadeu

Regis Tadeu é crítico musical, jurado do Programa Raul Gil, colunista/produtor/apresentador do portal do Yahoo, produtor/apresentador dos programas Rock Brazuca e Agente 93 na Rádio USP FM e foi Diretor de Redação/Editor das revistas Cover Guitarra, Cover Baixo e Batera.

 

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