On The Rocks

‘Falta de qualidade comprovada’

Há alguns meses escrevi sobre o falso ensino superior que é ofertado no mercado. Naquele momento a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil)  divulgou a lista de 90 faculdades que não conseguiram aprovar nenhum aluno no exame da ordem. Nomeei o texto de "delinquência acadêmica", em uma homenagem a um dos grandes intelectuais brasileiros, Mauricio Tratemberg, que foi um dos primeiros a denunciar a o caráter das universidades brasileiras, ainda mais acentuado quando pensamos a maioria das universidades e faculdades particulares.

No texto, apontei a expansão indiscriminada do número de faculdades que cumpria dois propósitos: Encher mais os bolsos dos empresários do ensino e contemplar uma classe média com o sonho de ter um filho "doutor". Seria um jogo de ganha-ganha se não houvesse um porém: o ensino que não é ensino, um fast food que mata a fome, mas não alimenta.

Neste circuito, de venda de diplomas em 48 parcelas, o professor é o empecilho, aquele que pode atrasar a compra. Salários aviltantes, autonomia inexistente, espremido entre os clientes que pagam e querem receber o produto à venda e a instituição de ensino, que o considera descartável.

Durante anos o Ministério da Educação (MEC) não só fez vistas grossas como estimulou mais e mais aberturas de cursos, sem nenhum critério. As avaliações institucionais se baseavam na lógica de mercado, como uma propaganda. "Temos notas X", bradavam as universidades nos comerciais de horário nobre, Y % dos nossos alunos foram aprovados. Para mim, não diferenciava muito das propagandas de carros com seus "90% de consumidores satisfeitos".

Pois bem, hoje, sexta-feira (23 de março) o MEC finalmente resolveu agir: vai fechar uma universidade, a São Marcos por "irregularidades que comprometem o funcionamento" e por descumprir medidas determinadas pelo Ministério da Educação.

Além disso, o MEC anunciou uma auditoria na Unip (Universidade Paulista) por suspeita de fraude no ENADE. Segundo o ministério, a Unip atrasava o lançamento dos diários dos maus alunos, habilitando somente os bons alunos a fazerem a prova do Enade. Com isso, a universidade conseguiria "maquiar" os dados, tendo notas altas que não refletiam a situação do ensino. Depois disso ela podia usar, como slogan publicitário, "Qualidade comprovada".

Ainda de acordo com o Ministério da Educação, mais 30 outras instituições de ensino adotaram a mesma prática, fraudando o Enade, confundido o "consumidor".  A se confirmarem as suspeitas, é caso não só de descredenciamento, mas de pesados processos cíveis e criminais.

Ainda que dentro da lógica puramente mercantil, da propaganda enganosa, o MEC finalmente cumpre seu papel de fiscalizar o ensino superior. Espero que siga em frente e peite os barões da venda de diploma, bem como seus alunos, clientes que agora estão insatisfeitos e enfurecidos.

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Sobre Walter Hupsel

Walter Hupsel é mestre em Ciência Política pela USP, Professor de Relações Internacionais da FASM, músico frustrado e torcedor do Esporte Clube Bahia. Escreve sobre política, relações internacionais o que mais achar relevante.

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