Humor narcisista

Há uma ditadura do politicamente correto no Brasil e a mais nova vítima dela são os humoristas. A última desta turma do politicamente correto foi encrencar com o "Proibidão" Stand Up, um show de humor no qual os espectadores têm que antes assinar um termo prometendo não se ofender com as piadas contadas no espetáculo.

Num determinado momento do "Proibidão", um humorista disse que "não se pega Aids transando com um macaco", e neste instante olhou para um músico da banda (que estava ali trabalhando, e não se divertindo), que é negro.

É um absurdo se ofender com uma piada que compara o negro a um macaco! Como é um absurdo uma mulher se ofender com piadas sobre estupros! Ora, humor é humor, não pode sofrer censuras e sequer pode ser considerado ofensivo. Afinal, qual é o problema em se fazer rir com a desgraça do outro? Qual o problema em ofender, em humilhar?

Este é o mote do humor playboy, como disse com precisão Nina Lemos. O playboy, este ser criado a ovomaltino e leite com pera (célebre criação de Gil Brother), se diverte agredindo e humilhando os outros que são, em sua totalidade, as maiores vítimas de uma sociedade perversa e cruel.

As piadas do "politicamente incorreto", como esta turma gosta de se chamar, como se fossem os mártires lutando contra a chatice da vida "certinha", não têm nada de "politicamente incorreto". Não questiona as estruturas, não se choca contra as realidades, não traz o incômodo, o deslocamento, a estranheza.

Ao contrário, ao fazer estas "piadas", não denuncia, reforça. Reforça situações e preconceitos, reforça as violências cotidianas.

O riso que pode provocar em seus espectadores (que assinam um termo a priori), é naqueles que estão em situação semelhante a do humorista, de cima, que não vê o outro, o negro "invisível e subalterno", a mulher em situação de superexploração, o homossexual que é esculachado nas ruas, agredido fisicamente ou mesmo assassinado. Para ele, o "politicamente incorreto", o outro, as violências sofridas, é motivo de riso, de escracho.

O que eles, os baluartes do "politicamente incorreto" não percebem é que não são incorretos, não fazem humor ácido, corrosivo. Fazem um humor (se é que isso é humor) narcisista, para si mesmo e seus pares, sobre si mesmo, que os coloca como acima dos outros para rir da desgraça alheia, como quem se diverte "narcisisticamente" tacando ovos do alto de um apartamento em Ipanema.

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