On The Rocks

Poder paralelo

Quem mora em São Paulo tem vivas na memória as imagens dos ataques do PCC em 2006, como retaliação às transferências de seus líderes para presídios de segurança máxima. Também teriam concorrido para os ataques o achaque de policiais a membros do PCC.

O resultado foram ônibus incendiados, atentados a delegacias e postos policiais, boatos, notícias desencontradas e o pavor nas ruas.  Lembro de ter ficado quatro horas no trânsito saindo do trabalho para ir para casa no meio da tarde, quando o comércio fechou as portas com medo. Um trajeto de meia hora se tornou oito vezes maior, e o silêncio nas ruas era uma coisa assustadora. Não se ouvia buzinas ou música dos carros. Todos concentrados, apavorados, com o pensamento firme de chegar em casa em segurança.

Depois dos atentados do PCC parece que houve uma espécie de revanche da polícia, que saiu pelas ruas justiçando pessoas, "apagando" antigos desafetos, "limpando" as ruas das pessoas indesejadas.

De qualquer maneira a "real" história do que aconteceu em 2006 está para ser contada. O fato é que foram dias de pânico em São Paulo. Diferenças à parte, que são muitas, o que aconteceu na Bahia (especialmente em Salvador), não foi muito diferente.

Melhor, foi diferente, bastante diferente. Quem se encarregou de aterrorizar a população não foram os criminosos putos com a corrupção da polícia, mas foi a própria polícia. As gravações autorizadas pela justiça mostram um dos  líderes da greve da PM baiana pedindo "reforço" de outro grupo de policiais do sudoeste do estado para "descer" para Salvador.  Na conversa, o "reforço" promete "queimar carretas" e "parar a Rio-Bahia" (BR 116, principal elo de ligação de Salvador com o sul do Brasil).

Óbvio que o movimento grevista da PM baiana sabia o que estava acontecendo (todos na Bahia falavam que as ações de distúrbio nas ruas eram de autoria de policiais), e que de certa maneira apoiava as ações terrorista dos seus líderes.

Isso é simplesmente inconcebível. Como pode as forças de segurança cometer tais atos e ter apoio de uma parte significativa dos seus membros?

Esta é "A" pergunta. Que hajam criminosos numa instituição, é óbvio que há, e em todas. Que estes tenham apoio e sejam "lideranças" é o ponto. A Polícia Militar é uma corporação basicamente autônoma,  que existe sem quase nenhum controle dos órgãos públicos. "Responder ao governador" é quase uma falácia.

A "segurança pública", nos moldes que aí está, não funciona. A começar que ela é tudo menos "pública", pois não deve satisfação ao público, não está sujeita ao seu controle. Uma sociedade democrática requer uma segurança realmente pública, que responda à população, dê satisfação, esteja sob seu controle, e não autonomizada como se fosse uma milícia.

A greve da PM da Bahia (que agora se espalha pelo Rio de Janeiro), com seus atos terroristas, demonstram de maneira cabal que uma reforma nas instituições da segurança pública é urgente.

Este é o desafio. Ou é isso ou ficaremos para sempre reféns deste aparato paralelo de poder.

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Sobre Walter Hupsel

Walter Hupsel é mestre em Ciência Política pela USP, Professor de Relações Internacionais da FASM, músico frustrado e torcedor do Esporte Clube Bahia. Escreve sobre política, relações internacionais o que mais achar relevante.

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