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Tende piedade da Pietà

Pietà, de Michelangelo, representada no Translendário. Foto: Divulgação
Charges de Maomé publicadas em 2005 pelo Jyllands-Posten, um jornal da Dinamarca, detonaram centenas de protestos de grupos radicais muçulmanos, que iam desde boicotes a empresas dinamarquesas até incêndios em embaixadas deste país. O autor dos cartuns teria cometido o crime de blasfêmia e heresia contra um homem santo, o profeta Maomé.

Esta reação foi vista no "ocidente" como coisa de gente bárbara, que não entende o valor da arte e muito menos da liberdade de expressão. Ambas, a arte e a liberdade de se exprimir, seriam mais que conquistas, seriam condições fundamentais de uma sociedade moderna, ocidental.

Ontem, no Ceará, o deputado estadual Fernando Hugo (PSDB) denunciou um calendário que contém homossexuais imitando a "Última Ceia", de Leonardo da Vinci, e um travesti imitando a Pietà, de Michelangelo. Para o deputado, as poses "desconfiguram" as obras originais, e a publicação seria uma "afronta às obras consideradas cristãs".

Acho que o deputado entende pouquíssimo de arte, e olhe que nem me refiro a ele ter chamado a Pietá de "pintura", quando é uma escultura, e das mais famosas do mundo.

Entende pouquíssimo de arte ao falar "desfiguram". Não sei bem o que isso significa, mas deve ser algo como "transformam" a idéia original (que, no caso, é do século 15). Esquisito. Ora, as obras de arte são sempre referenciadas à outras, em influências de estilo, tema e técnica. Arte "pura" simplesmente não é arte.

Além deste grito, o nobre deputado estadual, atarefado, disse que enviaria o calendário para representantes da Igreja Católica. Desconfio que ele queira que a Igreja se envolva nas discussões, se junte à sua reclamação, contra esta "desfiguração" das obras consideradas "cristãs".

E aí, fará o que? Pedirá a censura e o recolhimento das fotos porque elas não são cristãs? Porque "ofendem" uma fé?

Aliás, sugiro a Fernando Hugo que busque os herdeiros do franquismo para que, juntos, peçam o banimento de "Viridiana", um filme clássico de Luiz Buñuel, que tem uma cena que "desfigura" a mesmíssima Última Ceia, mas em vez de homossexuais, o diretor espanhol retratou mendigos.

Qual mesmo então a diferença entre a postura do deputado estadual do Ceará e os grupos radicais muçulmanos que se indignaram com os cartuns de Maomé?

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Sobre Walter Hupsel

Walter Hupsel é mestre em Ciência Política pela USP, Professor de Relações Internacionais da FASM, músico frustrado e torcedor do Esporte Clube Bahia. Escreve sobre política, relações internacionais o que mais achar relevante.

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