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A incrível arte de levar um pé na bunda

O título acima poderia ser um pouco mais digno, mas no momento eu escolho o drama e o whisky como companhia. Um relacionamento que começou há 5 anos de forma inesperada, com uma troca de telefones numa festa e um cinema já marcado para o dia seguinte, terminou com a seguinte conversa na cama: "Fe, o que você acha de não morarmos mais juntos? Eu não te amo como amava antes, os sentimentos mudaram."


(Cena do filme Waking Life, uma animação interpretada pelos atores Julie Delpy e Ethan Hawke).

Este é um dos momentos da vida em que a gente tem licença poética para chegar ao fundo do poço e depois cavar ainda mais, com uma intensidade digna dos filmes do Pedro Almodóvar. Os amigos nos dizem de tudo, inclusive, que tudo vai ficar bem, mas a gente não quer ficar bem, a gente quer é ficar com a pessoa amada. Um dos conselhos mais pitorescos que eu ouvi foi "Não vá se matar, hein!". A minha resposta veio espontânea: "Não dá ideia, você sabe que nesses momentos a gente fica influenciável e veneno de rato nem custa caro."

O cinema e a literatura nos levam a acreditar que o amor é um "E viveram felizes para sempre", mas as vezes somos surpreendidos por uma quebra de contrato. E cadê o telefone do SAC (Serviço de Atendimento ao Coração) pra gente fazer uma reclamação do produto? O manual supostamente dizia que a garantia era eterna. A vontade é olhar para o céu e gritar com as mãos erguidas "Por que Deus, por queeeeeeeeeê?!", mas os vizinhos podem querer lhe internar e a pessoa amada ainda vai ter uma boa desculpa, alegando que você ultimamente apresentava sinais de loucura, sendo assim, a única solução foi terminar a relação.


(Cena do filme Laranja Mecânica, durante o tratamento Ludovico).

Pois bem, da última palavra escrita acima, até estas que você lê agora, já se passaram quase 8 semanas e voltei a redigir este texto com outra percepção. Não me matei, não liguei bêbado para a pessoa no meio da madrugada implorando para ela voltar e já consigo acordar e dormir sem pensar nela. Ok, algumas vezes do dia eu ainda penso, mas já não entro em um elevador lotado chorando. Mas e o que você, leitor, tem a ver com isso? Bom, você provavelmente já levou ou deu um fora em alguém após um longo período de relacionamento e deve estar se identificando com alguma situação. Fique tranquilo, eu não vou escrever nenhuma frase de autoajuda!

Uma psiquiatra suíça, chamada Elisabeth Kübler-Ross, publicou em 1969 um livro chamado "On Death and Dying", baseado em pesquisas sobre as cinco fases que passamos ao lidar com a perda, o luto e a tragédia, que aqui, eu comparo com o término de um relacionamento. Os estágios são:

1- Negação e Isolamento
: "Isso não pode estar acontecendo comigo."

2- Raiva: "Por que eu?! Não é justo!"

3- Negociação
: "Me deixe amar\viver mais um pouco."

4- "Depressão: "Estou tão triste, nada mais faz sentido."

5
- Aceitação e Superação: "Tudo vai acabar bem."

A verdade é que a vida continua, porém, você sabe que algo mudou. Os filmes românticos passam a ser vistos com outros olhos, viram apenas roteiros escritos por alguém que também poderia ter escrito uma ficção científica. E você, receoso, vai pensar duas, 3 e até quatro vezes antes de pagar o ingresso para se aventurar em uma nova história de amor. Mas a comédia é a melhor solução e se você não fizer piadas de si mesmo, tudo vai virar um terror bem trash, desses com (d)efeitos especiais duvidosos.


(Cena do filme O Show de Truman, com o ator Jim Carrey).

Você tem várias opções para dar continuidade a sua trajetória. A primeira é virar alguém amargurado, um viúvo sem que a pessoa amada tenha de fato morrido ou esteja enterrada. A segunda é se jogar de cabeça em outros relacionamentos, mas sempre procurando um pouco do (ou da) ex nas futuras relações. A terceira, e não tão óbvia logo após um término, é saber que a vida pode nos surpreender e nos apresentar alguém tão ou mais especial, mas nunca igual como aquela do passado, afinal, cada pessoa é única. Ok, eu falei que não iria escrever nenhuma frase de autoajuda, mas cheguei até a pesquisar o termo e descobri que agora esta palavra se escreve sem o hífen... enfim, além da nova ortografia, a gente também aprende que nunca há um final, mas sim, um recomeço. E é isso que torna a vida tão incrível!

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