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Uma madrugada caminhando na avenida Paulista

A maior avenida da América Latina nunca dorme e a cada instante algo de interessante acontece entre os cruzamentos da avenida Paulista.


Eu comecei a minha caminhada às 2 da manhã ao lado do Agenor Dantas, que trabalha como gari há 6 anos. Eu disse que estava fazendo uma matéria sobre a vida noturna daquela avenida e se podia entrevistá-lo. "Pode sim, mas venha andando comigo, pois ainda tenho muito o que fazer e não posso parar."


(E o Agenor não parou mesmo, nem para eu fazer o click acima).

Ele me contou que começa a varrer as calçadas do metrô Paraíso e vai até o metrô Consolação. "O meu trabalho é garantir que a partir das 5 da manhã toda a extensão da avenida Paulista esteja limpa. As pessoas nem percebem, mas gostam de encontrar as ruas limpas... acho que o povo pensa que isso acontece automaticamente, né? Mas tem muita sujeira por aqui, se não fosse eu e os outros garis, a cada manhã vocês veriam o quanto de lixo as pessoas jogam diariamente pelas ruas. Coloca aí na sua matéria que gente educada joga lixo só no lixo."


(Da esquerda para a direita, Jefferson Assis, Pedro Santos e Valdemar Rabello).

Todo o canteiro central da avenida Paulista está sendo refeito pela prefeitura de São Paulo e, por isso, uma equipe de muitos homens, entre os 3 acima, se revezam para cumprir este trabalho. "Preferimos trabalhar na madrugada porque o sol queimaria as nossas cabeças e o trânsito prejudicaria o nosso trabalho. As vezes precisamos buscar algum material no outro canto da cidade e em 20 minutos conseguimos ir e voltar. Imagina se o trânsito fosse sempre assim? Seria um paraíso!"

A madrugada estava quente e os termômetros marcavam 27º C, inclusive, até a foto parece derreter de tanto calor. A minha caminhada continuou e tentei falar com uma mulher que andava distraída. Eu falei "Olá, tudo bem? Será que eu posso...", mas antes de eu terminar a frase ela gritou e saiu correndo atravessando a rua. Pensei na mesma hora que eu deveria ter me vestido de uma maneira mais formal, pois eu estava usando bermuda e uma camiseta desbotada. Será que se eu estivesse usando um terno ela teria parado para conversar comigo?

Cheguei em frente do Parque Trianon e conversei com um policial que preferiu não ser identificado. "Eu não tenho autorização para conversar com a imprensa. Mas o que você quer saber?". Ele me contou que esta unidade fica 24h parada na frente no Masp e o museu é o maior motivo disso, pois a preservação das obras de arte e segurança das mesmas são obrigação do governo. Além disso, a calçada recuada facilita o acesso e não prejudica a passagem dos pedestres.

Sim, o vão do Masp é o lugar favorito dos skatistas, assim como o Anderson Freire Brandão, de 19 anos, me contou às 3h10 da manhã. "Este lugar é mais seguro porque tem a base policial que fica bem em frente. E aqui eu consigo fazer as minhas manobras e aproveitar que a calçada fica vazia. Andar de skate aqui de dia é complicado, tem o risco de trombar com a multidão."

O bar acima fica aberto até às 5 da manhã e o movimento costuma ser intenso. Eu perguntei para um dos garçons qual o tipo de público que frequenta o bar a esta hora da madrugada. Ele pensou por alguns segundos e respondeu: "Todo tipo de bêbado, desde os trabalhadores até os vagabundos boêmios, bar é bar, não importa o dia ou horário."

Eu já usei uma foto nesta matéria para registrar que a madrugada estava quente e resolvi comprar uma cerveja para continuar a minha caminhada. Abri a lata, dei um gole e um grupo de 3 pessoas passou por mim rindo e disseram: "Olha lá, este aí é dos nossos, resolveu curtir a noite em grande estilo."

Eles não quiseram se identificar, pois afirmaram que ninguém em sã consciência estaria vagando e bebendo pelas ruas aquela hora. Eu perguntei se eles gostariam de expressar algum tipo de opinião e o rapaz de azul (a esquerda da foto) disse: "Sim, eu quero registrar que o Brasil inteiro vai sentir muita falta da Carminha, esta novela foi ótima e nenhum Santo vai conseguir ocupar o lugar dela."

Eu me despedi e fiquei olhando enquanto eles caminhavam na direção oposta, todos cantando uma música que eu não conseguia identificar. Acendi um cigarro e reparei que já havia cruzado com muitos mendigos, no total, mais de 10. Foi aí que decidi tentar entrevistar um deles. Abordei alguns, que me ignoravam ou me xingavam de nomes que não posso escrever aqui. Confesso que de um deles eu até precisei correr e só aí senti que já era hora de voltar para casa.

Mas eu sou teimoso e resolvi fazer uma última tentativa, que acabou dando certo. Foi num ponto de ônibus que o Regynaldo (ele fez questão de dizer que era com Y) topou conversar comigo. Eu fiz uma única pergunta e ele respondeu tudo o que eu precisava ouvir.

- Eu reparei que há muitos mendigos andando pela avenida Paulista na madrugada, devo ter cruzado com mais de 10 no total. Por que vocês preferem ficar aqui durante a noite?

REGYNALDO: "Meu jovem, você e a sociedade estão doentes, cegos e só enxergam o que querem ver. De dia existe tantos ou mais mendigos por todas as ruas, mas vocês preferem não nos ver, pois estão ocupados vivendo esta vidinha programada de vocês... casa, trabalho, casa, trabalho, casa, trabalho, casa, trabalho. Eu uso crack? Não importa! Vocês devem usar algo bem pior, chama ganância, chama loucura, chama individualidade. Tá vendo, eu sou inteligente, eu sei falar e conversar! Eu estou nas ruas porque eu quero, não acredito e não faço parte da sociedade de vocês."

Ele parou de falar e ficou olhando para um ponto fixo. Eu perguntei se podia fazer uma foto dele. "Só se você me der um cigarro... e um isqueiro, porque o meu acabou."

Tá ali, o cigarro na mão dele e a foto que eu tanto queria fazer.

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