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Uma noite com 4 garotas de programa do Baixo Augusta

Às 23h45 desta segunda-feira, dia 24 de setembro, eu estava na rua apalpando os bolsos da calça jeans e conferindo se havia pegado tudo: máquina fotográfica, bloquinho de notas, uma caneta e R$ 35,00 amassados dentro da carteira. Era isso o que eu precisava para conversar com as garotas de programa da região do Baixo Augusta.

Caminhei uns 3 minutos e cheguei na boate The Big Ben. Duas moças loiras e de saltos altíssimos estavam na porta e me falaram "Boa nooooite" quase que ensaiadas e sorridentes. Eu falei que era jornalista e queria bater um papo com elas. Ambas toparam e me chamaram para conversar na frente da fonte de água que você vê na foto.

Fernanda, 21, e Priscila, 20 anos, me disseram que são primas e trabalham há quatro meses como garotas de programa. Quem as convidou para esta vida foi a própria tia, que é gerente da casa, e já havia recrutado mais parentes sem que ninguém da família desconfiasse. As mães de ambas, inclusive, pensam que elas trabalham com a tia em um supermercado. A jornada de trabalho é de segunda a sábado, das 20h até às 4h da manhã, inclusive nos feriados. Elas ganham R$ 1.200,00 fixo (pois são dançarinas) e cobram + R$ 200,00 por programa. A Priscila confessou que odeia os velhos casados que vão lá só para conversar e reclamar das esposas. Já a Fernanda, disse que acha bizarro os pais que levam os filhos gays e os obrigam a se converterem em héteros. "Tem pai que traz o filho aqui e oferece R$ 500,00 pra menina que conseguir fazer o filho ter uma ereção e consumar o ato. As vezes a gente faz um acordo com o filho e mentimos para o pai, só pra ele ficar satisfeito e achar que o Júnior é macho". As duas primas disseram que odeiam este tipo de vida e estão nessa por uma fase provisória, pois não nasceram para serem putas. Elas tem o desejo de voltar a estudar... mas disseram que o dinheiro fala mais alto.

Cheguei no Las Jegas e fui informado que para conversar com qualquer menina, eu deveria pagar R$ 10,00 de entrada e teria uma cortesia de 2 latas de cervejas, sendo proibida qualquer tipo de interação na calçada. Eu aceitei e ao entrar lá, as meninas me disseram que só topariam dar a tal entrevista caso eu pagasse tequilas para elas. Expliquei que estava sem dinheiro e passei a ser ignorado. Após tentar puxar papo, uma delas disse ao segurança que eu estava sendo inconveniente e fui convidado a me retirar. Tentei negociar e consegui pegar as minhas duas latas de cerveja antes de ir embora, afinal, eu estava com sede.

Me dirigi ao Blue Night Show pensando em como iria convencer alguma menina a conversar comigo. Por sorte, conheci a Giovana, 29 anos, que era tão desinibida que me pediu "Vamos tirar uma foto minha lá fora? Tem um carro vermelho que vai combinar com o meu vestido!"

Após eu fazer o click, ela disse que o seu recorde foi ganhar R$ 6 mil em uma semana, mas gastou todo o dinheiro sem saber no que exatamente. Entre os seus planos para o futuro, o que mais a empolga é abrir um pet shop, pois ela ama animais. Inclusive, ela mora com a sua mãe, dois gatos e um cachorro. "Eu já trabalhei como babá de crianças, fui cuidadora de velhinhos que precisam de enfermeira e não pense que já transei com eles. A relação era só profissional, nada de sexo, eu juro! Aliás, sempre que eu desisto de trabalhar como puta, eu volto a cuidar dos velhinhos... e nunca ninguém suspeitou de nada, nem mesmo a minha própria mãe. Ela me acha uma santa e conta pra vizinhança inteira que eu ganho muito dinheiro como babá." Eu ofereci uma cerveja para a Giovana e ao tirar os R$ 25,00 restantes da carteira, ela disse que quem iria pagar era ela: "Jornalista, eu aposto que ganho mais do que você, deixa que eu te pago."

Pois bem, após entrar em 3 boates, eu decidi caminhar pelas ruas e tentar conversar com alguma garota que estivesse parada em uma das esquinas da região. Andei pelas ruas  Fernando de Albuquerque, Costa, Bela Cintra e ouvi inúmeras recusas. Confesso que uma das garotas me pediu R$ 20,00 antes de aceitar conversar, e quando eu lhe entreguei o dinheiro, ela saiu andando dando risada, me deixando com apenas R$ 5,00 dentro da carteira e uma enorme cara de idiota.

Mas foi na esquina da rua Mathias Aires com a Haddock Lobo que encontrei a Laura, de 38 anos, que você vê na foto abaixo. Ela me contou que teve um derrame no ano passado e por isso só tem movimentos em uma das metades da face, pouco conseguindo mexer a mão esquerda. Ela me contou que já foi casada, mas mesmo assim fazia programas escondidos do marido. Após a separação, ele a encontrou um dia na rua e ficou chocado ao descobrir que ela era garota de programa. "Mas eu me surpreendi, porque um dia ele voltou nesta mesma esquina e quis trepar comigo, pagando o hotel e tudo. Me falou que tinha ficado com este fetiche na cabeça desde que soube que eu era puta."

Eu conversei com a Laura por uns vinte minutos naquela esquina, ela me contou várias aventuras e todas as maluquices que já fez em troca de dinheiro, enquanto gargalhava ao lembrar dos detalhes. Algumas não cabem escrever aqui, outras eu nem saberia como redigir. Quando eu estava indo embora, pois já havia tentado me despedir diversas vezes, a Laura me disse: "Olha, mocinho, eu vou te contar a pior coisa que já me aconteceu na vida. Quero que você publique isso e jure que vai colocar na matéria que nenhuma mulher deve jamais se prostituir. Uma vez um cliente me levou embora no carro dele e me ofereceu muita cocaína. Eu comecei a cheirar, mas ao invés de ficar ligadona, acabei dormindo... sei lá o que cheirei, mas quando acordei eu estava num quarto escuro. Ele me manteve lá presa por alguns dias e fez de tudo comigo, eu pensei que fosse morrer e algumas vezes até acharia melhor que isso tivesse acontecido. Mas não, ele preferiu me soltar e me deixou em uma estrada, tive que voltar pra casa pedindo carona para quem tivesse humanidade perante a minha situação. Hoje eu estou aqui, viva e continuo a me prostituir, mas não desejo isso nem mesmo para o meu maior inimigo."

Eu usei os R$ 5,00 restantes da minha carteira para comprar uma cerveja e dividí-la com a Laura, que me emprestou mais R$ 1,00 para completar a grana da garrafa. Fui embora para a minha casa pensando que, as vezes, pagamos um preço muito alto para viver.

*Fotos por Felippe Canale.

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