Empresas mais inovadoras do mundo empregam cada vez menos gente

Pedro Burgos

(escritório do Snapchat, empresa avaliada em US$ 10 bilhões e que tem 45 empregados.)

Avistei essa semana o Breakout List, um site simples com estatísticas sobre quais jovens empresas de tecnologia estão despontando, por diversos critérios. É claro que “jovem” não quer dizer pequena: na lista há o Buzzfeed, quase 7 anos de vida, que todo mundo já clicou e já recebeu quase 100 milhões de dólares em investimento; o Snapchat, lançado há 3 anos e meio e que vale quase 10 bilhões; ou o Uber, que apareceu no mercado em 2009 e, mesmo com as polêmicas, pode ser avaliado em 40 bilhões de dólares por ter carros em 50 países.

O Breakout List é interessante também porque ali dá pra ver, de uma vez, o número de pessoas contratadas por essas empresas. E aí descobrimos o tamanho desses gigantes: o Reddit tem 80 funcionários. O Tinder, 50; Snapchat, 45; Slack (um app incrível de comunicação dentro da empresa que vale US$ 1,12 bilhão), 50. Apenas um punhado tem mais de mil. Em outras palavras: nenhuma das empresas mais inovadoras do mundo digital emprega muita gente, mesmo as que tiveram alguns anos e bilhões para investir. Aliás, são justamente as enxutas que valem mais.

A gente aqui no Brasil vive cobrando a “criação de um ambiente mais propício para inovação”, mas não sabe exatamente o que quer dizer com isso. Volta e meia algum político solta a ideia de que quer a criação de um “Vale do Silício brasileiro” – e quem haveria de ser contra ter as empresas que revolucionam a vida de milhões criando soluções em terras tupiniquins? Acontece que, se o nosso modelo for os Estados Unidos, é importante entender o que está acontecendo lá realmente. Estou simplificando alguns dos argumentos (podemos aprofundá-los nos comentários!) mas nos links há mais informações.

A primeira coisa a se ter em mente é que o empreendedorismo está em queda nos Estados Unidos, a nação mais inovadora do mundo – e as empresas criadas empregam cada vez menos gente. Os empregos são cada vez mais concentrados em grandes corporações, como WalMart ou Starbucks. O número de pessoas empregadas em startups é o menor em 30 anos, e no setor tecnológico não há mais tantas empresas sendo criadas quanto em 1999, na época pré-bolha. Ou seja: mesmo com todas as condições favoráveis (capital abundante, mão-de-obra qualificada, baixa regulação), o Vale do Silício é melhor em alimentar meia dúzia de gigantes (como Google, Apple e Facebook) do que criar outros. A nova economia, em rede, de certa forma fortalece mais os gigantes do que abre espaço para os pequenos. 

A segunda é que o Vale do Silício não é tão “terra das oportunidades” assim. Não é só ter uma ideia brilhante em um alojamento universitário ou juntar um amigo e montar uma oficina na garagem do tio. Como a ótima reportagem do El País sobre o “mito da garagem” esclarece, nem a Apple nem o Google ou o Facebook nasceram do nada. É claro que há gênios por trás das ideias, mas as fábulas também envolveram acesso a alguns amigos ricos (como no caso do Facebook), experiência em grandes empresas anteriormente (Apple) e investidores estranhos capazes de dar um cheque de 100 mil dólares depois de um almoço (Google). Há um bocado de sorte envolvida – e ao repetirmos sempre apenas as ideias bem-sucedidas estamos ignorando o tamanho do papel do acaso e a quantidade de investimento para que as ideias realmente decolem.

Por úlltimo e não menos importante, todas as grandes empresas inovadoras usam ou contratos precários ou trabalho gratuito. O Instagram foi vendido por US$ 1 bilhão para o Facebook porque, apesar de ter apenas 13 empregados, tinha milhões de “funcionários não-remunerados” que trabalhavam postando suas fotos, gerando valor para o aplicativo – um site de notícias não pode enriquecer com o mesmo esquema. Idem para Twitter ou Facebook. O TaskRabbit, Uber e qualquer outro que usa “freelancers”, não paga 13º ou férias, apenas as horas trabalhadas. E algumas vezes o que pagam é muito menos que o salário mínimo (como faz a Amazon para os seus Mechanical Turks). Isso é o que alguns americanos chamam de “gig economy”: flexibilizar radicalmente as relações trabalhistas pode ajudar a tirar essas ideias disruptivas do papel, mas não garante a melhora de vida da classe média “operária”, que têm seus salários achatados nos EUA.

Acho que seria legal ter uma Breakout List brasileira. Ela não seria tão grande, mas teria por exemplo um 99Taxi, com pouco tempo de vida e apenas 85 funcionários, mas já em 100 cidades. E discutiria as mesmas coisas: o aplicativo melhora muitíssimo a vida de quem não usa carro em grandes cidades como eu, mas está sendo devastador para as cooperativas, que de repente se viram obsoletas. Ninguém vai sentir saudade das cooperativas. Mas pelo menos elas empregava pessoas em diversas cidades, e não um punhado em apenas um centro de operações (ou algoritmos). O que as pessoas de cooperativas de táxi desempregadas pelo 99Taxi vão fazer, ou as camareiras de hotéis quebrados pelo AirBnB, sem a educação devida? 

A lição que vem do Vale do Silício é que se um dia magicamente pudermos criar empresas mega-inovadorass e globais made in Brazil teríamos bilhões em capital investido, milhões de usuários satisfeitos, mas não necessariamente mais e melhores empregos. Aliás, quer saber qual setor na Califórnia do Vale do Silício gera mais postos de trabalho? Construção Civil. De longe. Quer saber qual a região mais desigual dos EUA? Adivinhou. San Francisco, coração do Vale do Silício, tem a mesma desigualdade de Ruanda.

Não me entendam mal. Não sou contra a inovação, obviamente, e uso os serviços de todas essas empresas. Não acho que deva haver mais regulação no Brasil para impedir que elas surjam. Mas é que quando eu vejo esse monte de empresas levantando bilhões e dando dinheiro para muito pouca gente eu tenho dúvidas se isso vai garantir um futuro melhor pra todo mundo, mesmo que nossos smartphones façam coisas cada vez mais legais. E não faço ideia de qual a solução para isso.