Policiais deveriam usar câmeras nos uniformes?

Pedro Burgos

Há cada vez mais gente nos Estados Unidos dizendo que Michael Brown, o rapaz de 18 anos que levou 6 tiros de um policial na cidade de Ferguson, em Missouri, poderia ter sido salvo por uma câmera. Ou, mais especificamente, uma pequena filmadora, como a deste conjunto aqui:



Como? Bem, ninguém sabe ao certo o que aconteceu para que Brown fosse morto. Inicialmente, a polícia disse que ele estava agitado – possivelmente pelo uso de drogas – e partiu para cima de um policial que o abordou. Mas outras testemunhas disseram que o rapaz estava com as mãos para o alto (gesto que virou um símbolo dos protestos que se seguiram).

Vai demorar para se chegar a uma conclusão sobre o caso. Mas se os policiais estivessem filmando tudo, haveria pouca dúvida – não seria simplesmente a palavra de uns contra a de outros. Por isso mesmo, uma das primeiras medidas que a prefeitura de Ferguson anunciou para diminuir os abusos policiais foi justamente instalar câmeras nos coletes dos policiais.

A iniciativa vem ganhando adeptos nos últimos anos: outras cidades médias dos Estados Unidos já usam o sistema. Em Rialto, cidade californiana de 100 mil habitantes, o fato de os policiais usarem câmeras ajudou a diminuir o uso da força na resolução de conflitos em 60% e a reclamação dos cidadãos sobre a polícia teve queda de 88%, de acordo com o um relatório.

Há pouco mais de dois anos, quando o Google anunciou o seu Glass, os óculos que podem gravar e transmitir tudo que está à frente do usuário, muita gente fez questão de reclamar do quanto que aquilo poderia representar a violação de privacidade e a criação de um estado vigilantista (em vez de “O Grande Irmão” vários “Irmãozinhos”, pra ficar na analogia orwelliana). Alguns lugares até baniram os “glassholes”, apelido carinhoso dado a quem anda com uma câmera na cara.

Mesmo assim, a ideia de que a polícia use um apetrecho desses parece menos ameaçadora e até positiva, no saldo. O chefe da polícia de Rialto explicou à Atlantic porque o uso de câmeras é um instrumento eficaz:

“Quando você fala em colocar a câmera em alguém, a natureza humana dita que essa pessoa [o policial] irá medir cada palavra a sair da sua boca e que irá se manter bem comportado. Ao mesmo tempo, há um impacto nos cidadãos. Se eles sabem que você está usando uma câmera, eles também irão se comportar bem”.

Muitos dos crimes de hoje em dia, inclusive de má-conduta policial, são pegos por câmeras de segurança espalhadas pela cidade. E nos EUA, 93% dos casos de má-conduta policial capturados em câmeras resultam na exoneração do oficial. Câmeras no painel dos veículos policiais são comuns em vários países do mundo. Falta então, mais câmeras, agora nos policiais?

Parece não faltar motivos. Cinco pessoas morrem em confrontos com a polícia por dia no Brasil. Será que câmeras que produziriam provas mais concretas ajudariam a diminuir o problema?

É difícil dizer. Toda vez que eu ouço que algum problema humano pode ser resolvido com “mais fiscalização” tenho arrepios. O que é certo é que não só há um movimento para que isso aconteça, especialmente nos Estados Unidos – com a polícia de Nova York testando um piloto este ano – como há um imenso mercado em potencial.

A Taser, que fabrica a mais popular arma de choque, foi a primeira a entrar no filão das filmadoras policiais e já expandiu sua operação para outros países – os policiais londrinos passarão a usar o sistema este ano. Além do kit para filmagem da foto lá em cima, oferece um serviço chamado evidence.com, uma “nuvem” segura para se guardar todo tipo de provas em processos criminais. A vantagem é que o dispositivo que grava e armazena os vídeos fica relativamente bem separado da filmadora em si, deixando o conjunto bem mais leve:

A Motorola solutions, braço mais lucrativo da empresa de telecomunicações que o Google não comprou, tem dois terços da sua receita oferecendo equipamento de segurança, como câmeras e walkie-talkies. E já anunciou a entrada no mercado de “olhos artificiais para policiais".

Não tenha dúvidas de que em algum momento a moda chegará aqui no Brasil, em licitações milionárias. E a tecnologia pode ser útil. Mas se o objetivo for garantir uma relação mais honesta, de transparência, entre a polícia e a população, temos que voltar alguns passos e exigir coisas mais básicas: como o uso da identificação na farda, por exemplo.

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Foto: Taser Internacional