Você ainda usa o Word? As alternativas podem ser bem melhores

Você está de frente para o computador e, por algum motivo, quer escrever um texto um pouco maior. Pode ser um email longo, um trabalho para a faculdade, um post para o blog, um relatório. Você abre o Word para fazer isso? Se sim, eu lhe pergunto: por quê?

Desde que larguei o Word há uns 4 anos, eu faço essa pergunta para pessoas aleatórias, especialmente jornalistas e gente que ganha a vida escrevendo. A principal resposta que ouço é “uso por força do hábito”, que se segue com várias pequenas reclamações. Usar por costume é uma justificativa bem aceitável, já que o Windows foi o grande monopólio da computação pessoal, e o Word foi a palavra, onde todo mundo aprendeu a dar as primeiras tecladas. Ninguém nem considerava alternativas até poucos anos atrás.

Mas o mundo evoluiu um bocado, ao contrário do Word, que é funcionalmente o mesmo há pelo menos 10 anos – 99% das pessoas estariam muito bem servidas com o Word 95, ou no máximo o Word 2003. E acho que hoje há alternativas bem melhores, para quase qualquer necessidade. Listando algumas:

O Evernote (ou mesmo o OneNote da Microsoft), Google Keep ou Notas do iOS/Mac são melhores para capturar coisas rápidas e acessá-las depois em outros computadores ou no smartphone; o Google Docs é melhor para quem quer simplesmente colaborar, comentar e revisar textos – e é de graça; o Omniwriter, Byword ou iAWriter são melhores para escrever sem distrações; o Ulysses III e Scrivener funcionam para organizar coisas mais complexas, cheias de referências, como livros ou teses; mesmo o Outlook, Mail ou Airmail são programas superiores para escrever mensagens mais longas com alguma formatação – afinal, elas serão lidas no email mesmo, e não impressas.

Você pode argumentar que o Word é melhor porque não só todo mundo conhece, mas porque faz “tudo que os outros fazem”: dá para modificar coisas online (com o uso do novo Office), colocar um bocado de formatação, mudar para o modo tela-cheia, com menos distrações. Mas justamente porque ele precisa fazer tudo, ele é pesado, tem menus confusos e tem a péssima mania de tentar adivinhar quais os melhores opções de formatação ou ortografia e organização sintática, errando frequentemente. Para completar, o Word parece ter sido pensado para um mundo onde o destino de um documento seria, invariavelmente, a impressora. O que é um problema, já que pegamos um texto escrito e ora jogamos em um email, ou em um Tumblr, ou no Facebook. Mas isso já foi sua maior força.

Quando foi criado lá no início dos anos 80, o Word foi uma revolução por dois motivos: era o primeiro editor do tipo WYSWYG (“What you see is what you get”, ou “o que você vê na tela é o que sairá no papel”) e permitia a aplicação de “estilos” depois dos textos escritos, usando o mouse. Como bem notou o escritor Edward Mendelson, em um brilhante artigo New York Review of Books, no Word você primeiro escrevia, depois “pintava” os parágrafos com fontes, cores e recuos diferentes, o que era mecanicamente diferente das máquinas de escrever e editores de texto da época. Para escrever tudo em caixa alta, por exemplo, você primeiro apertava fundo o “shift” da máquina, escrevia o que tinha de escrever, e depois soltava. Se quisesse escrever em caixa alta no computador em um programa como o Wordstar, precisava fazer algo parecido.

Mas, como nota Mendelson, apesar (ou por causa) dessa forma de funcionar, o Word privilegiava a organização e formatação do documento (as “seções” e “estilos”) ao invés do que de fato era escrito. “Compor (um texto) é ordenar e estruturar pensamentos, não mudar margens e escolher fontes”, diz Will Moyer, que tem um site dedicado a dar dicas para escritores (e insiste que o Word deve ser o último recurso).

Da mesma forma que o PowerPoint privilegia um certo tipo de comunicação de ideias, e contaminou nossa cultura empresarial com pensamentos necessariamente curtos, tipo “bullet-points” e tudo que for transformável em um gráfico, o modo Word de pensar e escrever parece querer emular aquela menina da minha sala que anotava as coisas do quadro-negro em várias cores diferentes de caneta. Só que essa organização cheia de hierarquizações e diferenciações entre várias ideias não é necessariamente a forma mais clara de apresentar uma ideia.

(A interface do Ulysses III no Mac e o Daedalus, seu companheiro no iPhone)

Eu escrevi um livro usando uma combinação de Byword e o Ulysses III, dois programas do Mac que usam uma lógica diferente do WYSWYG do Word. Neles, você só aplica qualquer formatação para além do negrito e itálico depois de escrever tudo (uma herança da linguagem LaTeX, de textos científicos), na hora de escolher o formato a ser exportado (pdf, doc, ePub, etc). O arquivo usado na verdade é um .txt, o mais simples possível (com recursos de Markdown – algo que falarei melhor aqui algum dia). O fato de ele usar o .txt tem duas vantagens: o arquivo é leve e você o vê da mesma forma em qualquer plataforma que abrir. Então, quando estava na rua tinha uma ideia de mexer em um pedaço de um parágrafo do livro, podia abrir e mexer muito rapidamente, sem qualquer preocupação de perder a formatação ou longas sincronizações na nuvem. Porque a formatação não deve ser a coisa mais importante.

O acesso e a compatibilidade rápidas em diferentes programas e dispositivos é importante pra mim, mas para outras pessoas, a colaboração é o aspecto fundamental, algo que o Word também perde, mesmo nas últimas atualizações – a começar pelo preço. O programa da Microsoft é de uma época de “documentos fechados”. Sempre que eu tenho que trabalhar com alguém que usa primariamente o Word, eu olho para os arquivos gerados e sinto calafrios. É um tal de Textoblabla-rev_Pedro1.docx pra cá em um email, ou textoblablabla_v2.docx pro outro lado. Isso faz pouco sentido hoje.

Eu vejo como os adolescentes usam cada vez mais o computador para fazer o seu trabalho escolar e, nas escolas onde o Google Apps é utilizado, o aluno escreve direto no Google Docs e quando termina convida o professor para ver. Aí o professor pode colocar as correções diretamente, e fazer os comentários. Isso economiza não só papel, mas permite uma melhor legibilidade do que é alterado – algo crucial nesse ambiente.

Isso para não falar de como o Word é péssimo quando queremos escrever para a web. Quando colamos algo no Word para um Wordpress da vida sai tudo esquisito. E quando exportamos um arquivo dele para HTML a chance de sair algo estranho na formatação da página é gigantesca. Então, pra que insistir?

Pode haver coisas que só o Word faz pra você e não há sentido em mudar. Cada um cada um, com necessidades diferentes. Mas acho que os apps para celular, com menos espaço de tela, capacidade de processamentos e teclado físico, nos ensinaram que muitas vezes menos é mais. Experimente algo menos complexo, sem aquele monte de opções que o Word. Pode ajudar você a clarear as ideias, o que é o fundamental na hora de escrever. Funcionou pra mim, ao menos.

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