Voltar para o século 19 é a ideia de inovação no Vale do Silício hoje

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Se antes a internet só servia para encomendar produtos, hoje funciona também, e cada vez mais, para serviços. Já começa a ser natural pedir um táxi pelo aplicativo do 99Táxi e EasyTáxi ou comida delivery pelo Restauranteweb. E, na verdade, qualquer serviço pode ser facilitado com um app dedicado. Na Alemanha, por exemplo, há um app para solicitar prostitutas.

Agora, imagina um app que se propõe a resolver os problemas da sua casa, abrir a geladeira e ver o que falta na lista de compras (e pedir no supermercado) ou ver o cesto de roupa suja e agendar alguém para lavar tudo? É exatamente o que se propõe o Alfred Club. O serviço, que já funciona há quase um ano na cidade de Boston, acaba de vencer o Techcrunch Disrupt SF, a maior competição entre startups de tecnologia dos EUA.

A ideia pode parecer interessante, e eu até acredito nas boas intenções dos fundadores do serviço, mas ele acaba mostrando vários problemas do Vale do Silício hoje. Não estamos falando (apenas) de uma outra bolha de investimentos, exatamente, mas sim que o pessoal de lá parece viver em uma bolha. Eu vejo a fala da criadora do serviço, Marcela Sapone, e penso: pra quem é isso?

O argumento vendedor do app, que convenceu os jurados a dar um cheque de 50 mil dólares, é que as pessoas hoje chegam em casa, vêem tudo bagunçado, e não têm mais a “energia mental” para organizar as próprias vidas. Eu concordo que nem todo mundo tem tempo de fazer as tarefas domésticas. Mas Marcela não está falando de ir ao mercado ou lavar a própria roupa. Mas sim usar apps que permitam fazer isso. A ideia do Alfred Club não é que ele seja uma diarista, mas sim um contratante de serviços domésticos. Vende-se também o status: “imagina se dar ao luxo de ter o próprio mordomo?”, pergunta Marcela.

O público-alvo de coisas como o Alfred Club não são eu e você, mas pessoas mimadas e/ou muito ricas. E há cada vez mais serviços destinados a essa galera. Os “Alfreds” (é assim que eles são tratados) prometem usar outros apps como o Homejoy, que serve para contratar faxinas e já recebeu 50 milhões de dólares em investimento; ou o Washio, que busca a roupa, leva para uma lavanderia e entrega de volta, e que já recebeu mais de 10 milhões de dólares de fundos de capital.

O problema maior é que esses serviço, que levantam milhões de investidores, pagam muito mal para quem de fato presta o serviço. O mordomo do Alfred Club custa 99 dólares por semana, e a pessoa escolhida para fazer o serviço tem de arcar com transporte e ainda dar uma porcentagem ao app. É muito pouco, dada a realidade de lá. A ideia parece reforçar a diferença de status entre contratante e contratado: a tela em que o usuário escolhe o mordomo, uma espécie de Tinder para mostrar ficha limpa e referência de outros patrões, lembra muito Downtown Abbey, se houvesse 3G naquela época.

Como é possível surgir coisas assim? É simples: o Vale do Silício, onde estão a maior parte dessas empresas (e quase todos os investidores), é um dos lugares mais desiguais dos Estados Unidos – lá, o índice GINI, que faz essa medição, é pior que o do Brasil (ou de países como Guatemala e Ruanda). O rendimento médio anual de alguém que trabalha com tecnologia em San Mateo, distrito onde fica o Facebook, por exemplo, é de 291 mil dólares, ou 685 mil reais. E, mesmo assim, eles parecem achar justo que os faxineiros do Homejoy tenham que bancar o próprio material de limpeza, não sejam compensados por cancelamentos e providenciem treinamento e transporte.

São essas pessoas que não têm energia mental para fazer a lista de compras e acham que uma empres que nem sequer tem uma lavanderia (apenas busca e entrega) merece 10 milhões de dólares para ser o “99táxi da lavanderia”.

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