Propostas de candidatos a presidente para o esporte repetem Felipão: chutões para o alto, ausência de organização tática e muito chavão

Mais importante do que o resultado da Copa do Mundo é a contínua incapacidade de o Brasil estabelecer alguma política nacional que permita transformar o esporte, e em consequência o futebol, numa força motriz econômica, educacional e social.

É tema de relevância pública que não pode ser deixado nas mãos de espertalhões como ocorre hoje. Produtores da maior "commodity" esportiva do mundo, os clubes estão endividados, e seus dirigentes e atravessadores, ricos. Precisa de mais para saber que está tudo errado?

Além de discursos oportunistas sobre a Copa do Mundo, ninguém cobra dos candidatos propostas políticas práticas e executáveis para o esporte.

Em seus programas de governo protocolados no Tribunal Superior Eleitoral, o tema esporte é mais vago do que a noção de conjunto da seleção na Copa passada. A estratégia de chutões para a frente - bola para o alto e vamos ver no que dá - repete-se na política. Os candidatos também demonstram muito apego aos chavões estimuladores em detrimento a uma ação organizada e coerente. É o que no futebol se chama de falta de esquema tático.

As propostas para o esporte dos três principais candidatos são de fazer David Luiz e Thiago Silva caírem no choro. Desta vez, com razão.

Dilma Rousseff (PT) repete platitudes: "O esporte cada vez mais tem se tornado uma política pública com potencial para gerar riquezas, empregos e com muita capacidade de mobilizar nossas crianças, adolescentes e jovens como caminho complementar na construção de oportunidades. Desenvolver um sistema nacional de esportes que integre as políticas públicas entre os entes federados é prioridade. É urgente modernizar a organização e as relações do futebol, nosso mais popular esporte".

As perguntas que não responde:
o que deve fazer esse sistema de esportes? com que dinheiro? com que metas? que integração é essa entre estados e governo federal? em termos de educação e saúde? com que objetivos?
Como modernizar a organizações e relações do futebol?

Dilma afirma que tem o desafio de "proporcionar condições para que o Brasil figure, em
2016, entre os dez primeiros colocados nos Jogos Olímpicos e entre os cinco primeiros nos
Jogos Paraolímpicos".

O Brasil terminou a Olimpíada de Londres, em 2012, em 22º lugar com 17 medalhas (3 de ouro, 5 de prata e 9 de bronze). Em décimo colocado, ficou a Austrália com mais do que o dobro de medalhas do que o Brasil. Foram 35 medalhas, sendo 7 de ouro, 16 de prata e 12 de bronze.
Para conquistar a meta ambiciosa, Dilma propõe o "Plano Brasil Medalhas 2016" que, com investimentos de R$ 1 bilhão, pretende estimular 21 modalidades olímpicas e 15 paraolímpicas até 2016.  No último campeonato mundial de atletismo, por exemplo, o Brasil não conquistou nenhuma medalha. É uma meta mais do que ambiciosa: é de faz-de-conta.

Promete ainda "avançar na construção de 285 unidades dos Centros de Iniciação ao Esporte (CIE) em 163 municípios de todos os Estados e no Distrito Federal". Seriam centros dedicados a fornecer infraestrutura adequada ao surgimento dos futuros talentos esportivos brasileiros. A dois anos da Olimpíada, quantos centros estão prontos e revelando atletas? Nenhum.

O programa de Aécio Neves (PSDB) não é muito diferente do Dilma. Tem muitas palavras e enumera poucas ações efetivas. Prevê que o "esporte deve ser tratado como objeto de políticas públicas e como instrumento da formação educacional e da integração social, disseminando as boas práticas de convivência em comunidade e aprimoramento pessoal". Ótimo. Só não diz como.

Em suas diretrizes, estabelece obviedades sem indicar o caminho até elas. Quer a "promoção do esporte como ferramenta para o desenvolvimento humano, econômico e social"; "fomento
à integração do atual modelo de formação dos atletas brasileiros com as escolas e as universidades; aprimoramento e maior acesso aos mecanismos de incentivo a atletas, técnicos e projetos esportivos". Essas linhas podem ser tudo e podem ser nada.

Assim como a promessa de "estabelecimento de diálogo permanente e cooperação efetiva com as organizações esportivas para desenvolver ao máximo a indústria do esporte, de forma transparente e democrática, contribuindo para o crescimento do país e gerando emprego e renda".

O programa de Aécio repete palavras como "fomento", "apoio" e "garantia" em revezamento, como se fossem hortaliças salpicadas na sopa de letrinhas. Não explica como, por que e quando se darão o fomento, o apoio e a garantia.

Eduardo Campos (PSB) decidiu não perder tempo com o esporte em seu projeto de governo. Repete a palavra apenas seis vezes. Sempre em meio a chavões: "deve-se inscrever a prática de esportes e atividades corporais como parte do conceito de assistência integral à saúde". Certo: quem deve? como? com que dinheiro?

Segue Campos que a "Coligação promoverá políticas de cultura, esporte e lazer, integrando-as às políticas de juventude, com a finalidade de ampliar o convívio na diversidade e aumentar a disponibilidade de bens culturais e alternativas de lazer e recreação da população".
 
Não é uma proposta de governo de "sonháticos". Mas de "embromáticos".