Rafael Cortez

23 anos sem Nara Leão, que faria 70 anos em 2012

É hoje. Sete de junho. E, desde 1994, quando me dei conta dessa data, que todo dia 07 de junho é igual. Eu acordo, ponho os discos dela pra tocar e lamento. Lamento que 07 de junho seja o aniversário de morte da cantora Nara Leão.

Foi num 07 de junho de 1989. Nara combateu um tumor cerebral por 10 anos. Mas naquela manhã, na Casa de Saúde São José, no Rio de Janeiro, não deu mais. A "leoa Leão" deu adeus ao Brasil e deixou esse legado gigante — sua obra e sua influência maravilhosa na história da Música Popular Brasileira.

Desde bem pequenininho eu já gostava de Nara Leão. Ao longo de toda a década de 80, cresci ouvindo seus lançamentos. Foi muito gratificante ter a voz da "Musa da Bossa-Nova" embalando minha infância.

Adolescente, fui estudar violão. E tudo que se tocava de mais bonito e gostoso nas minhas rodinhas de músicos amadores tinha, de alguma maneira, passado pela voz de Nara — ou tivera sua influência. Descobri que Nara lançou muita música e muitos artistas, como Chico Buarque, Maria Bethânia, Sidney Miller, Fagner, Edu Lobo e tantos outros.

É impossível passar pelas últimas cinco décadas da MPB sem falar de Nara Leão. É uma artista que foi pioneira e representante maior da Bossa-Nova; musa da Canção de Protesto; aliada do Samba de Morro; divulgadora engajada do Tropicalismo; inimiga politizada da Ditadura Militar; pesquisadora da MPB antiga; atriz de cinema; desbravadora de mercados internacionais; primeira artista do Brasil a lançar um CD... Além de estudante de Psicologia, mãe e mulher.

Nara tinha um faro para novidades. Por exemplo, foi a primeira intérprete de elite a gravar um disco todo com canções de Erasmo e Roberto Carlos, em 1978, numa época em que eles eram taxados de bregas. Nara Leão era moderna. E hoje, passados 23 anos de sua morte, ela é tida como cantora de época. Cantora antiga. Uma das maiores injustiças cometidas com seu nome.

Outra dessas injustiças é atual; 2012. Se viva, Nara completaria 70 anos. Apenas um site, criado, pago e desenvolvido por sua filha Isabel Diegues (www.naraleao.com.br), foi colocado no ar para não deixar a data passar em branco. Além disso, a peça teatral ˜Nara ", com a excelente atriz Fernanda Couto, permaneceu em cartaz e seguiu turnê ao longo do ano. Mas show especial, tributo, relançamento de seus CDs? Nada disso foi feito como forma de homenagear uma Nara septuagenária. É como se o Brasil tivesse esquecido dela.

Eis que eu estava de férias em janeiro e, fora do Brasil, li uma matéria no dia 19 de janeiro, quando Nara faria aniversário. Alí, a filha dela reiterava o que eu já sabia: que 2012 não previa nenhuma homenagem especial para uma das maiores cantoras do Brasil. Após me revoltar com o fato, claro, resolvi arregaçar as mangas e fazer, eu mesmo, alguma coisa. Bolei um projeto chamado "Mulheres de Hoje Cantam a Nara de Sempre".

Com esse projeto, quero mostrar às novas gerações, à moçada de hoje, que Nara é atemporal. Quero que ela ganhe, ainda que atrasado, um presente de aniversário à sua altura. Estou falando de um show especial em 30 de outubro, no Auditório Ibirapuera, para ser gravado e lançado em DVD em 2013. Me juntei com gente muito talentosa, como a produtora Bianca Manzini, o músico e arranjador Otávio de Moraes e um dos diretores de projetos musicais mais premiado do Brasil, Oscar Rodrigues Alves. Chamei cantoras jovens e ecléticas, indo de Ivete Sangalo, Sandy e Mallu Magalhães a Laura Lavieri, Badi Assad e Bárbara Eugênia. Tudo isso para reverenciar Nara numa noite que tem tudo para ser marcante.

Mas aí nascem outros problemas. Deu um trabalho desgraçado até aqui, e estou bancando esse projeto com unhas e dentes. Mas sem dinheiro não tem homenagem. O projeto está na Lei Rouanet e precisa de uma verba considerável para acontecer. E aí esbarramos nas políticas de incentivo à Cultura, na dificuldade de conseguir recursos em grandes empresas, nos trâmites de contrapartidas, etc. É muito, mas muito difícil produzir cultura nesse país. Dá margem para um texto daqueles, mas vou deixar isso para outra ocasião.

Só me resta pedir a quem gosta de mim ou de Nara para que torça por esse projeto. E, tão logo você que me lê possa, coloque um disco de Nara Leão para tocar hoje. Veja um vídeo dela no Youtube, baixe alguma de suas canções. No lugar de chorar de saudades, consumamos a obra que ela deixou. A obra é o grande legado do artista. E a Nara é uma das maiores artistas de todos os tempos no Brasil.

Valeu, Nara!

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Sobre Rafael Cortez

Jornalista, ator, violonista e compositor, desde 2008 Rafael Cortez é também humorista. Trabalhou em diversas áreas: foi produtor de circo e teatro, atendente de vídeo-locadora, assessor parlamentar, integrante de duo de ventrílocos e redator de textos eróticos para celular. Tem 1 CD demo ("Solo") e outro oficial ("Elegia da Alma"), além de 5 audiolivros. Participou do "CQC" da Band e atualmente apresenta a versão brasileira do "Got Talent". Também faz parte do elenco do "Na Pegada" da Rádio Metropolitana FM.

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