Anúncio da hora do fim

Rafael Cortez

Tem uma hora na vida de um homem em que ele precisa saber quando sair de cena.

Aliás, essa sabedoria do "quando parar" deveria ser inata a todos. Homens e mulheres, cada qual sabendo bem quando é a hora certa de tirar o time de campo. Se esse bom-senso fosse geral, a Humanidade se veria livre de mais um disco do Restart, Michael Jackson não teria se sobrecarregado e morrido por um novo show, Serra não sairia mais candidato a nada e o Felipe Andreoli ia parar de jogar bolinhas em um balde.

Mas não. A gente observa o contrário. Tem gente que insiste no mesmo erro e não aprende. Que força uma barra danada a troco de coisa alguma, ou de muito pouco. E eu não quero ser mais um desses que dá cabeçada e não muda.

Antes que muitos dos leitores que me odeiam possam comemorar, não. Não vou abandonar minha carreira, sair do CQC, sair da TV, voltar pro teatro infantil ou pra lata de lixo onde alguns acham que nasci. Também não vou largar esse blog ou pedir as contas no Yahoo!. Mais simples que isso: eu vou parar, definitivamente, de ir a baladas.

Ontem, pela última vez, fui a duas casas noturnas. Duas na mesma noite. E me dei conta que meu tempo passou. Aconteceu, fiquei velho para festas bombásticas. Às vésperas de completar 36 anos, caiu a ficha que não consigo mais compactuar da histeria, bebedeira, loucura e hipocrisia que existe na noite e em seus personagens.

Eu já sabia, mas demorei pra entender de verdade: na balada ninguém é seu amigo realmente. E a premissa da eterna felicidade da noite com seus aditivos e barulheira é uma contradição com o que a vida pede da gente no dia seguinte, com seus compromissos e duras responsabilidades.

Antes que mais de 300 pessoas comecem a me agredir aqui dizendo que eu sou um tremendo mala, que não sei me divertir, que não posso julgar quem gosta de festas, etc, deixa eu escrever uma coisa: é tudo bem mais simples. Eu adorava toda essa bagunça das madrugadas. Mas tô ficando velho mesmo. Não consigo mais.

O erro não está nos lugares e nas pessoas que querem que eu dance e grite, está em mim. Envelheci. Aliás, nem dá pra chamar isso de erro. Envelhecer é uma dádiva, ainda que assuste um pouco.

À medida que o tempo passa, a gente somatiza rabugices e manias. Comigo isso fica claro nas baladas. O som muito alto me incomoda. Ter que socializar o tempo todo também. Lutar como um gladiador por um copo de vodca com energético mais ainda.

A gente passa a se preservar mais também. A iminência de sempre ter que "se dar bem" fica em segundo plano. A cobrança por emanar felicidade a todo momento cai. Você não aceita mais que espanquem sua conta bancária na saída. Uma hora você decide não ser mais do agito e se sente melhor. Você se aceita como é, com suas contradições e realidade.

Eu agora quero mais bares e jantares a dois. Mais filme em casa e uma ou outra festa temática por semestre, como um casamento de amigos, um lançamento de produto, um encerramento de evento. Vez ou outra, e olhe lá, alguém vai dizer que me viu numa balada — mas vai ser uma coisa pontual, como as festas do Iquinho, amigo do Cami Colombo, que são bem boas e raramente rolam em casas noturnas.

Enfim, foi bem legal enquanto durou. Acho que ainda levarei comigo, por muito tempo, um pouco dos milhares de litros de álcool que consumi nas noites, bem como parte da memória de bocas que beijei, entre mulheres lindas e outras que nem deveriam ter nascido. Espero que meu corpo não recorde muito dos cigarros que fumei e nem das vezes que abracei mais o vaso sanitário do que uma gata que tenha me dado mole.

Foi bom enquanto durou. Mas agora, acabou. A propósito: alguém sabe onde tem um bom lugar para jogar gamão?