“Como é bom poder tocar um instrumento”, já dizia Caetano.

E aí, galera? Tudo bem?

Ando sumido, mas é por uma causa muito boa: trabalho em excesso, muito investimento pro ano que vem, viagens felizes com meu solo "De Tudo Um Pouco" já em seu quinto ano de realização, ensaios e gravações de "A Nova Família Trapo", na Record, novos projetos, elaboração de shows novos, etc, etc, etc.

Prometo falar em breve sobre as novidades. Mas hoje quero compartilhar um texto aqui.

A revista OCAS de novembro traz um artigo meu, escrito especialmente para eles. Nele, falo de como nasceu minha paixão pelo violão. E o tema do amor pelo instrumento me parece mais apropriado que nunca. Afinal, estamos em semanas de Paco de Lucia no Brasil, o Deus do Flamenco! E poucas pessoas amam tanto o violão como Paco, um dos meus ídolos na vida. Irei no show semana que vem, sem sombra de dúvida!

Bom, mas gostaria de primeiro dividir esse texto especial pra Ocas aqui, com vocês. Espero que gostem!

Um abraço,

Rafa Cortez

De como o violão entrou na minha vida – e deu mais sentido a ela!

Por Rafael Cortez -
Ator, Jornalista, Humorista e Violonista

Tem sido assim desde 1994, quando eu o descobri aos 17 anos de idade: pouca coisa me é tão importante e prazerosa quanto tocar violão.

Eis que o instrumento apareceu meio que de sopetão. Eu frequentava a casa de uns amigos em noitadas regadas a cerveja e rodinhas de violão. Os garotos descolados tocavam Caetano, Chico, Gil. A bem da verdade, eram uns garotos mais maduros, praticamente antigos com seus hormônios a lhes contradizer. Eles vasculhavam o repertório bom da MPB, e não aquele pop chato que insistia em tomar os corredores das escolas. Tá certo, quando um dos moleques tocava “More Than Words”, do Extreme, os suspiros femininos confirmavam: beleza era com os bambas da canção, mas tocar a mulherada era mérito da balada internacional...

Só sei que aquele poder do instrumento me fascinou. Seis cordas, um formato em oito, tanto som... E que poder de agrupar e encantar as pessoas! Eu passei a só querer saber de violão. Uma noite, no banho, nunca me esqueço: meu irmão entrou no banheiro e eu, debaixo do chuveiro, lhe anunciei que seria músico, que no dia seguinte compraria um instrumento! Eu estava determinado. Na verdade, eu não sabia ainda, mas eu havia sigo fisgado de modo irreversível pelo meu lado violonista.

Demorei mais do que queria para ter meu próprio violão. Lembro de ir a algumas lojas, namorar alguns modelos, segurar alguns, tentar tirar algum som. Acabei comprando o meu só quando saiu o salário da vídeo-locadora em que eu trabalhava: adquiri um “Dell Vecchio” lindo, tampo de madeira clara com contrastes mais escuros, detalhes brancos nos trastes. Me apaixonei por aquele violão. Era como se o sol batesse nele a todo tempo, tamanha a luz que irradiava!

Comprei algumas revistinhas com cifras do momento, e todo dia ficava no balcão da locadora fazendo o mesmo: tentando montar acordes. Na luta por algum som. Imerso naquilo, obcecado. Por sorte, a DKR Vídeo era meio decadente, e pouca gente me interrompia para saber se já tinha saído “Uma Linda Mulher” em VHS. Eu fulminava os clientes com o olhar. “Como você me atrapalha assim?”

Comecei a fazer aulas de violão com uma professora paciente e muito doce. Chamava-se Ledice Fernandes. Ela vive hoje na Alemanha muito bem, como Doutora em Música; não sei bem em qual especialização. Ledice me ensinou diversas canções, consertou meus dedos, ajustou minha postura, me passou técnicas fundamentais. Nas rodinhas de violão da garotada, comecei a mostrar trabalho também! Conquistei meu espaço, embora não tenha descolado uma garota sequer por não tocar as baladas de fora...

Um dia, em Piracicaba-SP, estou na casa de um tio querido. Ele conta que um dos filhos está estudando violão clássico, “olha a coincidência, Rafael!”. E veio o João Paulo, 16 anos, a tocar estudos do Carcassi e exercícios do Carulli. E eu enlouqueci. Nunca tinha me dado conta da beleza do violão como instrumento solo, do quanto se podia tirar som e poesia de seis cordas sem palavras.

Voltei a SP e mudei minhas aulas. Ledice passou a me ensinar o clássico. E vieram obras apaixonantes, estudos dedicados, exercícios complicadíssimos e horas e mais horas de labuta no instrumento. Os anos passaram e eu vivi o resto da minha adolescência sem dar bola para bebidas, festas, amigos, mulheres, baladas... Só queria saber de tocar violão e estudar seus métodos. Entrei nos 20 anos da mesma maneira. Esquisitíssimo, introvertido, anti-social. Mas apaixonado pelo ideal violonístico.

Aos 22 anos fui reprovado no vestibular da Unesp-SP. Eu prestei “Violão Clássico”, curso oferecido por seu Departamento de Artes. Me preparei como um maluco para os exames práticos e teóricos. Ledice dobrou a quantidade de aulas na semana para me preparar para a tarefa. Minha amada, saudosa, inestimável e santa avó Helena, a quem serei grato a vida inteira, foi minha primeira mecenas: pagou minhas aulas de violão naquele momento de sonhos, num contexto em que eu estava duro e falido para bancar tal missão. E eu fui bem nas provas específicas. Mas pesou muito ter estudado em escolas públicas praticamente a vida inteira – foi a Química, a Física e a Matemática que arruinaram meus desejos.

Lembro de ter ficado muito desolado. Vivi momentos bem ruins decorrentes da frustração de não ter entrado no caminho que me levaria à profissionalização. Quase cortei as unhas da mão direita, o que é a morte para o violonista: a técnica clássica exige unhas aparadas na mão esquerda, a que forma os acordes, e unhas cumpridas e lixadas de maneira especial para dedilhar as cordas com a outra mão.

Continuei dando minhas aulas de violão (nessa altura do campeonato eu tinha meus próprios alunos, não muitos, mas tinha) e estudando com a Ledice, mas com pouco afinco. Vendi meu primeiro violão para uma aluna preguiçosa e desencantada. Como me arrependo disso! Em paralelo, trabalhava com tudo que me aparecia. Pagava as contas. Estudava. Prestava novos vestibulares. Tirei meu DRT de Palhaço. Fui fazer teatro. Tentava novos horizontes, todos fora da música profissional.

Foi preciso chegar em 2004, 10 anos depois da primeira flertada, para ter a segunda. A que me trouxe até aqui. Final do referido ano: me formei em Jornalismo na PUC – SP. Meu TCC foi um vídeo-desabafo único no curso, em que eu falava a todo o tempo da frustração de não ter me tornado violonista profissional. Havia um jogo de palavras no trabalho. De “Eis Tudo” eu ia para “Estudo”, “És tudo” e “Ex-tudo”. O mote era mostrar minha passionalidade com o instrumento, e abordar meu derrotismo. Usei uma linguagem não convencional. Não havia uma única pessoa no vídeo, só eu a falar com a câmera, mas sem jamais fita-la. Imagens minhas de arquivo, ou bastidores da minha vida então atual, completavam tudo. Mas sempre eu, eu sozinho. Ninguém estava na tela para contestar ou assumir o que eu dizia. O tom intimista, confessional e sentimental do trabalho teria de ser interpretado pela minha bancada com faro jornalístico. Naquela tarefa complementar do espectador também estava o Jornalismo, além do jogo central das palavras.

Deu certo: o TCC vingou, tirei a nota máxima, me formei! Mas também exorcizei um pouco daquilo que me sufocava; já não era um tabu falar de violão. E eu voltei a tocar, como quem resolve algo que estava atrapalhando a vida.

Dezembro do mesmo ano, 2004. Praia de Pouso da Cajaíba, Rio de Janeiro. Num determinado final de tarde eu tocava violão na areia, de frente pro mar, sozinho, repassando tudo que sabia tocar. O sol foi se pondo, e percebi no meio das músicas que as que eu mais amava e me davam esperança eram as minhas próprias, as que eu compus para mim, muito como auxílio para entender técnicas do instrumento. E eu percebi que eu tinha algumas boas peças! E me dei conta – é pequena, mas eu tenho minha própria obra para violão!!

Dalí em diante as coisas mudaram para mim. Segui firme nos anos seguintes com a consciência de que eu nunca seria – e nunca serei – um violonista de concerto, um músico profissional. Mas me veio a certeza de que tocarei violão a vida toda, focado no que gosto e sei fazer melhor: arranjos de obras não violonísticas para o meu instrumento, composições próprias, estudos descomprometidos, tentativas repletas de acerto e erro, etc.

Como resposta ao meu resgate do prazer de tocar, e também da minha aceitação como o que sou no horizonte musical, a vida me brindou com grandes realizações. Em 2005 lancei a demo do meu CD, minha primeira brincadeira de estúdio. Minhas peças estavam praticamente todas lá. Toquei com uma bailarina na Argentina, acompanhando-a em sua performance autoral. Ela dançava embalada ao som de algo que fiz especificamente para ela – eu também me vi criador no processo! Naquele ano também, toquei em um balé. Cerca de 20 bailarinas dançaram sete músicas minhas em duas noites de apresentações magistralmente coreografadas em São Paulo. Eu tocava ao vivo, no palco. Pernas e braços giravam no ar como resposta. Foi incrível!

2006, 2007 – anos de recitais. Poucos, mas intensos. E muito bonitos.

Até que em 2008 eu entrei no CQC, da Band, e passei a ser o cara que muita gente hoje conhece, ou que ao menos faz alguma ideia de quem seja.

Mas não esqueci do violão. Aproveitei a boa onda de mídia que me abraçou e honrei o instrumento. Em 2009 e 2010 fiz novas peças nos raros tempos livres de TV. A isso, somei os planejamentos, estudos e demais logísticas para lançar, enfim, o meu verdadeiro CD de violão. E em 15 de junho de 2011 subi ao palco do Teatro TUCA, patrimônio paulista das artes, afinei meu instrumento e mostrei as 15 obras do meu disco. No final, em meio ao coquetel com meus amigos, familiares, fãs e curiosos, vendi e autografei uma série de exemplares do “Elegia da Alma” – meu CD. Meu filho. Orgulho maior da minha vida. Resumo de um amor pelo violão que me tocou adolescente, e que ainda não passou. Constatação também do quanto o violão me ama e também me levou pelo braço nessa vida. E sempre estará ao meu lado, da maneira que for, e como for.

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