“De Tudo Um Pouco”: 100 apresentações do meu solo de humor.

Rafael Cortez

Hoje peço licença para tratar de algo que está mais forte do que a minha vontade de falar de notícias do cotidiano ou de fazer alguma reflexão ou crítica contundente. O fato é: tenho um show de humor que percorre todo o Brasil desde 2009 e, na última sexta, dia 20 de julho, fiz uma edição comemorativa de 100 apresentações!

Eu sempre amei o palco, e vinha nutrindo uma grande frustração de não ter mais um espetáculo para apresentar. Desde 2002, quando fiz minha primeira peça ("Made in Brazil", que foi a primeira direção teatral do hoje respeitado Pedro Granato), consegui manter uma certa frequência de participações em espetáculos: 2003 foi o ano de pagar mico em uma peça teatral cristã, que era ruim de doer mas eu adorava fazer... E entre os anos de 2004 e 2007 integrei um grupo de teatro infantil com o qual circulei por todo o estado de São Paulo e uma ou outra cidade mais, e com duas montagens.

Mas aí entrei no CQC em 2008 e parei de me apresentar. Não tinha mais grupo teatral, não podia entrar em cartaz por causa da agenda puxada de gravações e, acima de tudo, não tinha um espetáculo para mostrar. De vez em quando, quebrava um jejum de palco com algum recital de violão, mas não era a mesma coisa. Foi aí que veio a vontade de fazer Stand-Up — até porque o Danilo Gentili, o Oscar Filho e o Rafinha Bastos falavam maravilhas desse gênero de humor e viviam eufóricos com seus espetáculos por todo o país (vivem ainda).

Quem deu o primeiro empurrãozinho foi o Gentili. Em dezembro de 2008 ele simplesmente me comunicou: "escreve alguma coisa porque no dia 15 de janeiro próximo você vai fazer o "Open-Mic" de um grupo de humor que tenho integrado". "Open-Mic" é o batismo do Stand-Up: é quando alguém do meio ou algum grupo deixa um novato subir em seu palco para fazer 5 minutos de texto, desde que seja inédito e autoral, como bem exige o Stand-Up.

Eu escrevi uma série de porcarias e não percebi o quão mal eu me saí naquela noite porque tinha amigos demais na plateia, bem como fãs do CQC em excesso. Todos me fizeram acreditar que eu tinha detonado naquela estreia, o que não era verdade. Quando fui para Curitiba encerrar uma noite de humor é que me dei conta que Stand-Up não era o meu forte.

Eis que surgiram novas oportunidades de micos inesquecíveis. Por eu ser do CQC, grupos de todo o país me abriam portas para participações em suas noites de comédia Stand-Up, e eu apanhei feio do palco em muitas delas. Nunca vou me esquecer de como me saí mal na minha primeira vez no Comédia Ao Vivo, quando passei vergonha na frente de Diogo Portugal, Marco Luque, Fábio Porchat e Danilo Gentili.

Até integrei dois grupos fixos em SP de comédia Stand-Up, mas comecei a ir menos ou a adaptar minhas participações: atuava mais como Mestre de Cerimônias, ao mesmo tempo em que investigava o que eu poderia fazer de melhor.

Um dia, o Ítalo Gusso, que é o meu empresário e um dos meus melhores amigos, me disse: "você precisa ter um show, Cortez. Tenho viajado com o Danilo e o Rafinha e muitos produtores e plateias pedem um show seu". Eu neguei e aleguei que estava me retirando do Stand-Up, que aquilo não era a minha praia, etc. Mas ele combinou comigo de fazermos um primeiro solo em alguma cidade distante de São Paulo, para testarmos algum formato de show em que eu me saísse bem e ficasse à vontade.

Em agosto de 2009 fiz a estreia do "De Tudo Um Pouco", meu show de humor. Quem sugeriu esse nome foi a Alice, uma namorada do Rio. E estreei em Teresina, Piauí. Decidi que ele não seria chamado ou tratado como Stand-Up, e que seria show de humor mesmo para eu poder ficar mais livre das regras do gênero que eu não soube dominar desde o começo. Como show de humor eu poderia fazer algo que me dava mais prazer e onde percebi que funcionava melhor: interações e improvisos com a plateia.

Só que aconteceu o seguinte: tivemos tanta procura pelo show em Teresina que acabei fazendo três sessões, e todas abarrotadas de gente! E, por mais que eu tivesse me desvinculado do gênero Stand-Up e tentado algo com que me identificasse mais, minhas sessões na cidade foram uma bela de uma merda! Saí do Piauí feliz de ter "descabaçado", mas certo de que devia — e devo ainda - voltar lá com um show decente. E dá-lhe refazer o show para outras cidades e tentar não passar nova vergonha!

Ainda em 2009 fiz apresentações em Maceió e Mauá, entre outras cidades. Com o Ítalo, cheguei à conclusão que era preciso rodar mais com o show, ganhar horas de palco, viajar mais e testar até encontrar um formato legal. Segui com uma temporada em janeiro e fevereiro de 2010, onde passamos por Uberlândia, Campo Grande, João Pessoa, Ceará e Natal. O show estava mediano. Ainda não era bem-sucedido de críticas e pecava em ritmo e conteúdo. Eu não passava a vergonha das canjas de Stand-Up mas também não valia 100% o valor do ingresso em algumas praças.

Eis que o Danilo Gentili mudou minha vida mais uma vez. Numa sexta-feira, fui ao teatro em que ele seguia temporada em São Paulo. Estava completamente lotado, e eu fui assisti-lo para ver se aprendia algo funcional com ele, ou se o cara poderia me dar alguma dica nova. No sábado e domingo seguintes à apresentação dele, eu tinha um total de quatro sessões esgotadas do meu show para fazer em Campinas, SP. E eu estava decidido a fazer delas as primeiras melhores sessões da minha carreira de humorista.

Saí do show do Gentili convicto que o humor tem que lidar com a verdade. E eu optava por sequências de textos que não jogavam limpo comigo e com as minhas afinidades. Por exemplo: se gosto tanto de música e sei tocar um instrumento, por quê não falar disso no meu solo?

A grande virada veio quando coloquei o violão no meu show. Fiz isso logo de cara, nas sessões de Campinas, depois de uma madrugada em claro vendo como realizar a tarefa. Eu tinha resistência em tocar meu instrumento como humorista. Como estudei violão clássico, achava que o profanaria, que seria leviano com ele... mas foi bem assertivo criar um set final dos meus shows em que pudesse falar de música instrumental, Bossa-Nova e fazer as plateias cantarem uma música completamente idiota e com um refrão que gruda como chiclete: o "Todo Mundo na Balada", que compus em 2002 para a minha primeira peça, e que hoje é uma brincadeira divertida com meu público.

Desde então, meu show entrou em rota ascendente e se encontrou. Não é só Stand-Up, não é show de improviso, não é espaço apenas de interação, não é solo musical, espaço de contar piadas de domínio público ou piadas de minha própria autoria... É um pouco de tudo isso sim, somado a um gigantesco prazer em me apresentar.

De 2009 para cá foram 102 apresentações em mais de 60 cidades, 18 capitais e milhares de espectadores. Vivi situações maravilhosas, como a sessão abarrotada de gente no Teatro Pedro II, em Ribeirão Preto, ou a vez em que cheguei atrasado, pela porta da frente, com a plateia de Juíz de Fora, MG. Quase rolou um tombo no palco de Campo Grande porque resolvi entrar da coxia pedalando uma bicicleta, e o chão estava escorregadio. Teve a sessão em Botucatu onde morri de vergonha de falar tanta besteira no teatro porque, bem atrás de mim, tinha uma estátua de 2 metros de altura de Nossa Senhora. Rolou a mulher em Americana que saiu do meu show e abriu um Boletim de Ocorrência contra mim porque não gostou de uma sequência de piadas que fiz. Lembro da fã que entrou no meu camarim pela janela, em Mogi Guaçu, e com quem troquei uns beijos antes de subir no palco. Foi bem bonito ver a simplicidade do público de Vitória da Conquista, na Bahia, que foi me ver num teatro que era quase uma lona no meio da praça. Foi terrível suportar o calor de 40 graus na minha apresentação em Cuiabá. Foi irado interagir no palco com um menino de 8 anos de idade em Maceió e ver o repórter Márcio Canuto levantar pra aplaudir a gente de pé. Foi uma superação pessoal fazer três dias de show em Curitiba e mostrar pro povo da cidade que eu não ia mais envergonhar ninguém com piadas ruins, como fiz nas minhas canjas de Stand-Up por lá em janeiro de 2009. Foi um sonho me apresentar no Coliseu, em Santos, e ver a íntegra do show, pela primeira vez, em vídeo. Adorei fazer uma sessão especial de Dia dos Namorados em Bragança Paulista, quando toquei música brega para casais que ficaram de pé se beijando a meu pedido. Mais recentemente, foi gratificante ver que meu show em Belém praticamente lotou, e mesmo com Marco Luque na cidade, no mesmo horário e em um teatro maior. Assim como foi reconfortante fazer duas sessões em Manaus, mesmo com show do Michel Teló na cidade!

Na última sexta fiz o solo pela primeira vez em São Paulo, onde nasci e vivo. Meus pais e irmãos estavam na plateia. Amigos queridos estavam lá também, gente bem especial que nunca tinha visto esse trabalho. Coloquei a banda do meu mano Léo para abrir a noite, e o stand-up matador do Maurício Meirelles para fechar. Depois, um grupo grande seguiu para a minha casa e ficamos brindando a noite e esse feito. "De Tudo Um Pouco" tem dado certo, tem viajado o país, tem me alegrado muito e, o mais importante, parece ser bem querido pelo público e pelos parceiros de espetáculos em todo Brasil.

Muito obrigado a cada um dos produtores associados de cada cidade por onde passei. Valeu, pessoal da Nume Produções e Felipe Rodrigues (companheirão de viagens)! Valeu, equipes de cada teatro e centro de convenções que me tratam sempre tão bem... Obrigado CQC e Band, por me possibilitarem uma visibilidade que faz desse solo um projeto popular... Obrigado, mídias locais de cada apresentação! Mil vezes grato, amigos de comédia que me deram toques, oportunidades e incentivos inesquecíveis: Mau Meirelles, Rogério Morgado, Victor Sarro, Rafinha Bastos, Oscar Filho, pessoal do Comédia Express e tantos outros. Léo, meu irmão e melhor amigo, valeu por tantos toques e papos preciosos! O mesmo para a Thata, melhor amiga do mundo. Agradecimento especial para o Danilo Gentili, a quem devo muito desse show. E toda minha gratidão ao Ítalo Gusso, meu irmão, que tornou esse sonho possível pela primeira vez e segue comigo desde então.

Mas, pra finalizar, MUITO OBRIGADO a cada uma das pessoas que já me assistiu com essa comédia e fez tudo isso valer à pena. A gente nunca é nada sem o nosso público, e graças ao meu público eu hoje sou só felicidade!

Até mais uma sessão!