Rafael Cortez

Uma reflexão sobre as manifestações populares que pedem um Brasil melhor

Sobre as manifestações populares em todo o Brasil, que ganharam destaque na mídia nacional e internacional: isso me lembra o título de um livro (muito bom, por sinal) do escritor colombiano Gabriel García Márquez – “Crônica de Uma Morte Anunciada”.

O título vem a calhar porque, do jeito que a sacanagem persiste em imperar com toda força na sociedade contemporânea, era muito esperada uma reação coletiva e indignada. E dessa reação haverá um óbito evidente e muito celebrado. Aposto nisso.

No caso, vejo anunciada a morte da passividade brasileira, da acomodação popular, das diretrizes cegas de alguns que beneficiam outros poucos, da premissa que a “Lei de Gerson” rege esse povo e esse país. Um velho Brasil será enterrado. Algo muito melhor lhe tomará o lugar, é fato. Tem de ser assim.

As multidões nas ruas, buscando tomar o Congresso, bradando aos quatro ventos por mudanças estruturais imediatas, contestam – como se sabe – mais do que os centavos extras cobrados em passagens de ônibus nas principais capitais.

Além do que já foi listado no terceiro parágrafo desse texto, da desordem interna que nos revolta, há uma vergonha nossa de ordem internacional.

Vivemos em desacordo com o deslumbre midiático que adorna eventos mundiais aqui feitos para agradar turistas, mas realizados às custas de superfaturamentos e trambicagens de todo tipo, onde todo mundo sente na pele. Há uma vergonha compartilhada entre muitos de estarmos sempre em evidência lá fora por escândalos de corrupção, desigualdades sociais e incompetências crônicas em diversos setores de poder da sociedade. Há um desespero em ver o Brasil aclamado como terra de recursos abundantes, lar ideal, cartão postal do mundo, em meio a uma realidade de analfabetismo, pobreza e horizontes fechados para a maior parte da população tupiniquim.

É tudo o que foi colocado até aqui que justifica o barulho das massas. Tudo isso e mais um pouco.

Ocorre que agora, com as multidões revoltadas e em crescente escala de indignação, há de haver um cuidado geral com a lógica e condução dos protestos.

O apartidarismo é mais do que bem-vindo, e é gratificante notar que na última segunda foram muitos os que pediram a retirada de bandeiras políticas e de alguns militantes perdidos aqui e ali nas ruas. A luta por um Brasil melhor agora não pode ser tocada por um PT, PSOL, PSTU ou quem quer que seja. Isso inevitavelmente deturpará o caráter democrático e espontâneo das manifestações, de modo a virar instrumento de manipulação das urnas em pouco tempo.

O maniqueísmo inflamado de alguns que pregam ser a polícia o próprio diabo, e cada cidadão a protestar a imagem perfeita de Deus, também está errado.

É fato que policiais abusaram do poder na semana passada em São Paulo, mas daí a rotular cada profissional da lei e segurança como um anticristo, já é demais. Muita gente consciente viu bem as imagens dos protestos no Rio ontem, por exemplo, e notou ser desnecessária a depredação – por parte de manifestantes – de espaços públicos cariocas, bem como o quebra-quebra promovido na Assembléia Legislativa. É o que bem disse uma estudante indignada a um repórter de TV: “esses vândalos não nos representam”. Se queremos julgar os outros por seus atos, primeiramente devemos nos ter como exemplo. E temos de nos acalmar. Acreditar em revolução armada e pancadaria como forma de mudar o mundo é assumir uma ignorância grave ante todas mudanças históricas garantidas pela civilidade, democracia, diálogo e pacifismo.

A força jovem que toma as avenidas precisa estar ciente do panorama à sua volta. Não há energia maior do que a de uma turba de estudantes indignados, mas é preciso que cada um da galera saiba bem pelo que briga, qual o discurso e o que vinha acontecendo. Falo dos jovens pela passionalidade hormonal que lhes é característica, o que faz com que seja essa turma a mais inflamada, mais forte e revoltada nos protestos. Mas o alerta aqui vale para todos os setores da sociedade. Revoluções são assertivas quando a massa tem plena consciência da finalidade da briga e do contexto à sua volta. Em outras palavras, é trabalhoso, mas é necessário politizar o coro do protesto. Aliás, é mais trabalhoso ainda, mas é preciso politizar todo e qualquer cidadão.

Alguns estereótipos precisam acabar de vez. “Todo político é ladrão”. Mentira. Em cinco anos de CQC, entrevistei canalhas da pior espécie trabalhando para o povo, mas nunca ignorei alguns parlamentares que se notabilizam diariamente pelo trabalho sério, ético e exemplar. Tem, sim, muito político bacana e honesto por aí.

Da mesma maneira, a imprensa toda não pode ser taxada de golpista, alienada, sensacionalista, fascista ou algo ainda nessa ordem depreciativa, por conta de alguns representantes da mesma estarem em sintonia com essas ideias nocivas. Manifestantes impedirem o Caco Barcelos de trabalhar ontem em São Paulo, foi uma das maiores mancadas que já vi. Para quem não sabe, o Caco é um dos maiores jornalistas desse país. E independente de trabalhar onde quer que seja, é dele uma das obras mais impactantes sobre abusos policiais, violência e atentados aos direitos humanos – “Rota 66”, um dos melhores livros que já li na vida.

Enfim, eu poderia ir adiante nas palavras, ainda tentando explanar um pouco sobre esse momento que o Brasil atravessa. Poderia listar alguns outros cuidados que todos podemos tomar nos protestos, mas isso caracterizaria meu texto como um manual de conduta nas manifestações. Não é essa minha intenção e tampouco tenho conhecimento e moral para redigir tal guia.

O fato é que as coisas estão acontecendo, e só nos resta torcer por um final feliz. Ainda que se tente entender as massas nas ruas, propor caminhos, questionar medidas, dividir reflexões, não tem jeito: em se tratando de povo e de revolução, cabe à História nos contar posteriormente qual o desfecho decorrente do grito do povo, mesmo quando nem todo o povo sabe pelo que está bradando.

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Sobre Rafael Cortez

Jornalista, ator, violonista e compositor, desde 2008 Rafael Cortez é também humorista. Trabalhou em diversas áreas: foi produtor de circo e teatro, atendente de vídeo-locadora, assessor parlamentar, integrante de duo de ventrílocos e redator de textos eróticos para celular. Tem 1 CD demo ("Solo") e outro oficial ("Elegia da Alma"), além de 5 audiolivros. Participou do "CQC" da Band e atualmente apresenta a versão brasileira do "Got Talent". Também faz parte do elenco do "Na Pegada" da Rádio Metropolitana FM.

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