Reportagem 3 por 4

É nóis no rolezinho

Depois que tanta gente falou, escreveu, vociferou e cantou sobre os rolezinhos, agora é a hora de digerir o acontecimento entre aqueles diretamente envolvidos nele: o jovens de periferia. Eles são muitos e nem todos entenderam o que era aquela galera andando pelos shoppings enquanto os lojistas e seguranças entravam em pânico. Para investigar as origens e sentidos do acontecimento, a jovem Maria Nascimento Santana saiu em busca de rolezeiros e outros jovens que olham o acontecimento de lugares diferentes.

Recém formada do ensino médio numa escola pública de Taboão da Serra, zona sul da grande São Paulo, ela faz parte da Énois, um grupo que trabalha educação e comunicação com jovens da periferia. A Énois organizou um debate no Itaú Cultural no dia 11 de fevereiro com rolezeiros e jovens de toda a cidade. Depois de suas andanças, Maria foi a mediadora do debate. Como convidada especial do blog essa semana, ela escreve sobre suas dúvidas, angústias e sobre o que aprendeu sobre o rolezinho entre aqueles que estão mais perto dele.

Maria (esq) debate com Dricca, organizadora de rolezinhos

Com , vocês, Maria:

Você já deve saber o que é um rolezinho, aquele encontro feito por jovens, que dizem querer apenas dar um passeio pra se divertir, olhar vitrines, beijar na boca, enfim, aproveitar uma tarde. Você já parou pra refletir sobre esse evento? Já ouvi muitas pessoas dizerem “esses jovens estão fazendo baderna e deveriam estar fazendo algo de útil, como trabalhar”, isso porque a maioria tem entre 13 a 17 anos. Outros falam que é a falta de infraestruturas de lazer, tem quem diga que é um evento político e, tem até quem fale que é moda e vai passar. São muitas as opiniões de muitas pessoas que buscam uma explicação pra o rolezinho. Pra mim, esse acontecimento é tão complexo que não cabe em uma resposta.

Como cada um tem a sua opinião e a defende com unhas e dentes. O debate que aconteceu dia 11 de fevereiro no Itaú Cultural discutiu o rolezinho com a presença da Dricca Navas, organizadora de evento. “Eu vou no rolezinho pra me divertir, conhecer pessoas novas, beijar na boca, que é o que o jovem faz”, ela disse sem desgrudar um segundo do celular. O rapper Diel “Rimaístas” fez uma provocação pra quem torce o nariz pro rolezinho: “A partir do momento que a gente vira as costas pra esses moleques, que são ativistas, que querem fazer e querem conseguir o espaço, a gente vira opressor”.

O tema consumismo foi mencionado e Diel disse que essa vontade de ter roupas e tênis de marca é a necessidade dos jovens de serem vistos e notados pela sua turma, e essa de “chegar, chegando” só acontece quando eles aparecem com aquilo que está na moda. Antes do debate, eu entrevistei um rolezeiro pra a revista Na Responsa (revista do coletivo de comunicação jovem Énois) que também falou bastante de consumismo. O organizador de rolezinhos Rafael Oliveira, 17 anos, abriu o jogo: “Como as músicas, todos querem estar mais próximos da pura ostentação”. Depois que o evento virou notícia, Rafael teve a ideia de organizar um rolezinho pra doar sangue. Ele teve a ideia quando estava assistindo TV. “Uma mulher disse: ‘esses jovens, em vez de fazer algo de útil, vão tumultuar no shopping’. Daí fiquei pensando...”.

Mas voltando ao debate, no finalzinho, a galera do Capão Redondo mostrou que estava presente dizendo que a gente não devia focar só na superfície da discussão e sim pensar sobre o real motivo dos rolezinhos acontecerem. Ele falou da falta de oportunidades pra quem mora nas periferias, do preconceito. Essa fala foi até aplaudida. Também foi discutido como a educação de qualidade ainda não está acessível. E um exemplo desse problema aconteceu no debate mesmo, quando uma professora de sociologia fez uma questão elaborada pra Dricca e ela simplesmente respondeu: “Eu não entendi nada do você falou.”.

Pra mim, o rolezinho se tornou algo tão complexo quanto a poesia. Ele pode ser interpretado de várias maneiras, dependendo de quem o lê. Mas independente das opiniões diversas, ele veio pra ficar porque, além dos passeios nos shoppings, ele questiona a estrutura da cidade. Os jovens de periferia buscam um local de encontro, e por que esse encontro não pode ser com você? Não pode ser com todos?

Sobre Ana Aranha

Ana Aranha é repórter apaixonada pelo ofício de contar histórias. Trabalhou na revista "Época", na agência "Pública" e colaborou para diversos veículos, como o jornal inglês "The Guardian". Tem 11 prêmios de jornalismo. Para este blog, conta as histórias de quem vive o cotidiano da notícia, mas nem sempre ganha as páginas dos jornais.

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